BLOG
Reinaldo Azevedo
"Não há nenhum pensamento importante que a burrice não saiba usar, ela é móvel para todos os lados e pode vestir todos os trajes da verdade. A verdade, porém, tem apenas um vestido de cada vez e só um caminho, e está sempre em desvantagem" — Robert Musil em "O Homem sem Qualidades"

Sábado, Agosto 19, 2006

Na TV: ficamos sabendo que Alckmin já teve cabelo; a diferença entre ambos é só o botox

Vou tentar ser didático. Não para vocês, leitores habituais, que já entenderam tudo, concordem ou não comigo. Mas para quem precisa ouvir - e eu sei que lê o blog. Nós, os que votamos contra Lula - e, pois, escolhemos Geraldo Alckmin - tendemos a achar a campanha dele muito boa, não é? Com algum problema de ênfase aqui ou ali, o que se diz é verdade e tal. Então o homem é ele. E quem vota em Lula? Deve sentir em relação ao candidato que escolheu a mesma coisa. Até porque os programas são iguais. Se a gente juntar o Brasil de Lula mais o São Paulo de Alckmin, quem dormiu no Brasil acorda na Suécia, acrescida do nosso sol, das nossas praias, da nossa manemolência e, por que não dizer?, do nosso jeitinho. Será que agora eles me entendem? Dois corpos, em espaços iniciais distintos, são submetidos, para se deslocar, às mesmas forças, em condições constantes e invariáveis. A distância será mantida. É simples assim. A campanha de Alckmin, ainda que não ganhasse um miserável voto, teria, no primeiro turno, de tirar votos de Lula. E, como está, não tira. Parece haver uma disputa entre ambos para saber quem oculta mais as sacanagens do petismo, repararam? No país encantado de Lula e Geraldo, inexistem corrupção e desmando. Porque os marqueteiros não acreditam em campanha negativa. A campanha tucana teve ao menos o bom gosto de diminuir o tempo dedicado à sua biografia. Hoje, Alckmin nos contou onde ele cortava o cabelo. Informação: ele já teve cabelo. Ótimo. E aí veio aquele monte de obra, de perder a conta. A campanha de Lula tem mentiras gigantescas, como a história da menor taxa de juros em 20 anos. Fala dos juros nominais, não dos reais. Mas e daí? Refere-se à operação tapa-buracos, um queijo suíço também do ponto de vista legal, como uma conquista. Mas e daí? Desmontar essas mentiras levaria tempo, seria irrelevante e requereria algum conhecimento técnico do telespectador. O que é incompreensível é que os dois princiapais candidatos se entendam na decisão de ocultar o maior escândalo havido na história do país. O que é incompreensível é que isso ajude a eleger Lula no primeiro turno sob o silêncio cúmplice do PSDB. O que incomoda é que o próprio Tasso Jereissati não tenha moral para impor a linha justa de campanha nos Estados porque ele próprio não apóia o PSDB no Ceará. Aliás, em 2002, ele já ficou com Ciro Gomes. Um outro qualquer teria sido expulso da legenda. Ele a preside. Ok, se estivesse querendo ganhar a eleição, o partido não teria renunciado a quem tinha o dobro para ficar com quem tinha a metade. Já ali se podia supor algo de errado. E, agora, não se entregaria a uma estratégia obviamente equivocada. Alckmin e Lula são iguais e, parece, querem a mesma coisa. Então não é preciso mudar, Santo Deus! Por enquanto, a única diferença entre eles é que Lula pode ser candidatar também a ser show room de botox.
PS: Sim, eu vi que Alckmin criticou o baixo crescimento do Brasil, fez a comparação com outros países etc. Para a maioria de quem já vota nele, isso faz sentido. Para quem não vota, é javanês. E, até hoje, só um homem se deu dizendo que sabia javanês.

Considerações sobre o pobrismo

César Maia critica em seu "ex-blog" a mania dos marqueteiros do PSDB de insistir na biografia dos candidatos. Tem razão. Começa a ficar uma chatice. E, sobretudo, quando se demonstra que a família era humilde e tal. De certo modo, isso significa o triunfo do lulismo. Mas de um lulismo que também já é passado para o próprio Lula. Olhem que interessante: quando Lula era uma cria das Comunidades Eclesiais de Base (o marxismo cristão - marxismo cristão é assim como a facção corintiana da Mancha Verde e ou ala palmeirense dos Gaviões da Fiel), havia esse culto ao coitadinho que veio de baixo e que, como homem de baixo e enquanto tal, iria nos redimir e criar o reino da justiça social. Depois Lula se tornou o burguês do capital alheio de hoje; representante de uma nova classe social. Aí, ele deu um pé no traseiro nada santo dos bispos marxistas e se uniu ao neopentecostalismo da Igreja Universal do Reino de Deus. Da Escatologia da Libertação do Frei Betto para a Teologia da Prosperidade do "bispo" Edir Macedo. Lula é o novo rico da ideologia, assim como a Universal é novo-riquismo teológico do cristianismo popular. Lula põe botox na cara - nem precisava: bastava lustra-móveis Shell (ainda existe?) - e vira a farsa de si mesmo. Mas, como observa Diogo Mainardi em sua coluna de hoje, não consegue se livrar da cara de pobre. Não, não é essa pobreza relacionada ao dinheiro, mas à vida sentimental. Um exemplo contrário? Vejam Seu Jorge. Foi morador de rua. É um príncipe. Não cultiva o pobrismo. Lula cultiva e cultua. É o "escravo" da Genealogia da Moral, de Nietzsche. Seu poder de destruição é enorme porque carrega toda a força irracional e imoral da reação da suposta vítima. Do ponto de vista moral, aí está a origem de todo totalitarismo. Sim, viajei bastante. Quero voltar ao ponto. Chega de gente de origem humilde. Nós nos cansamos de todos os humildes. Até o marqueteiro de Lula se cansou disso - se é que o PSDB não percebeu. O pobre, no programa de Lula, aparece manipulando um aparelho de DVD e não dirigindo palavras lacrimosas a Geraldo porque tem um prato de comida. Alckmin vive dizendo que eleição não é guerra. É, sim, doutor. É a guerra sem sangue, com já disse um sábio. Estou fora de casa. Mas virei aqui sempre que possível.

A PARTE E O TODO: EU EM CAIXA ALTA

Uma leitora, dessas que sabem o que lêem e o que escrevem, observa que meus textos, entre ontem e hoje, deveriam estar em caixa alta, numa alusão a uma quase fúria para determinados assuntos. Ela tem razão. A reincidência no erro me faz perder a paciência.

Como já fui um mocinho de esquerda, alguns me perguntam se sobrou algo do meu passado trotskista, agora que estou com 45 anos — feitos neste dia 19, diga-se. Sim. Há a literatura específica, que me é muito útil (a maioria da esquerda não lê, só ouve falar), e, por incrível que possa parecer, o realismo. Alguns vão se espantar: "Mas como? Eles não são todos utopistas?" Conversa.

A utopia é só o horizonte da trapaça cínica (no caso dos espertalhões) ou do auto-engano (no caso ou dos bem intencionados ou dos cretinos). Mas os instrumentos, os meios, estes são muito realistas. Quem nunca foi de esquerda não tem idéia do que é decidir, por exemplo, fazer uma greve sabendo que a derrota será certa. Mas a luta precisa avançar. Ainda que alguns percam o emprego. Isso era no passado. Hoje, as causas podem ser outras: fabricar cadáveres no campo, por exemplo.

De todo modo, os esquerdistas são sempre muito frios ao definir seus alvos — e, quando foi ou é necessário, seus cadáveres: pode ser um, podem ser sete, podem ser 70 milhões. Os cínicos sempre sabem que haverá os trouxas para fazer a apologia da causa. É claro que percebi essa monstruosidade — felizmente, bem cedo — e a renego. Mas conservo a idéia de que a política é um “fazer”, é uma “escolha”, é a decorrência de atos objetivos, faz-se na relação com o outro e tem mais previsibilidade do que se supõe.

Por isso, incomodam-me os que se sentem imbuídos de obstinações, de vocações, de certezas que vão além de qualquer dado objetivo. Insisto: eu espero, torço mesmo, para que o quadro eleitoral nacional se inverta. Mas também quero dizer que acho isso improvável. Um grupo político — no caso, as oposições — não comete tantos e sucessivos erros impunemente. A realidade cobra a sua fatura.

- Errou quando não percebeu que Lula deveria ter sido apeado do poder — e havia motivos para tanto;
- Errou quando blindou Palocci na suposição de que se manteria uma economia estável, com um Lula fraco, que seria derrubado por um sopro;
- Errou quando tinha um candidato favorito, José Serra, que passou a ser atacado por líderes do grupo, como o próprio Alckmin e Aécio Neves. Em dezembro, Serra ganhava de Lula de lavada. Alckmin chamava aqueles números de “recall”. Em mais de uma entrevista, insistiu na necessidade de ele permanecer na Prefeitura. Imaginem só...
- Errou quando não puniu os seus dois únicos membros colhidos no valerioduto — num crime, de fato, pé-de-chinelo na comparação com os 40 quadrilheiros. E daí?;
- Errou quando, mesmo estando Serra tecnicamente empatado com Lula, e Alckmin com a metade dos votos (o número que tem hoje), desprezou quem tinha o dobro para ficar com quem tinha a metade;
- Erra agora, quando se assiste à mesma campanha seja para o governo do Estado, seja para a Presidência: Serra vence no primeiro turno, mas Lula também.

Quem acompanha o que escrevo sabe bem que não estou fazendo previsões sobre o passado. Meu artigo de estréia no jornal O Globo, em outubro, tirava um sarrinho do PSDB. Eu dizia que o partido deveria ser o único “no planeta terra” (como diria Loló) em que os líderes desautorizavam pesquisas que davam um dos seus como favorito à Presidência. Mais de uma vez escrevi — na verdade, foram 40 textos — que apostar tudo no horário eleitoral era temerário porque Lula também teria o seu.

O que dizer de um partido cujo presidente — Tasso Jereissati — apóia um candidato da oposição em seu próprio Estado? E não é uma oposição qualquer. Ciro Gomes, irmão de Cid, é hoje o mais virulento inimigo dos tucanos. Mas não é inimigo de Tasso. E é isso o que conta, certo? É esse mesmo Tasso quem diz que vai obrigar os candidatos nos Estados a fazer campanha por Alckmin. E ele? Continuará a sabotar Lúcio Alcântara?

É óbvio que a única chance de Alckmin provocar o segundo turno (de tentar ao menos) é pegar no calcanhar de Lula para valer. É por isso que estou citando o caso de Felipe Calderón no México há tempos. E não só eu. O prefeito César Maia, do Rio, tem feito a mesma coisa. Aliás, nossas críticas são contemporâneas e muito próximas. Uma coisa é certa: essa teimosia individualista, personalista, inexiste na esquerda. Ela é capaz de definir um objetivo e atuar como ordem unida. Talvez, do meninote esquerdista que fui, reste uma certa admiração por quem consegue formar um núcleo de inteligência, um núcleo estratégico.

Todo mundo já sabe que existe um Alckmin na disputa a esta altura. Sabe até onde era o seu quarto quando criança. Resta agora dizer por que é preciso mudar de presidente. Ou, como recomendou ACM, esqueçam logo essa história. E doem o dinheiro para as crianças pobres. Antes que o naufrágio federal contamine as campanhas estaduais, o que sempre é um risco. Alckmin já foi olímpico demais até agora e já impôs a sua vontade o que chega. Alguém precisa lembrar-lhe que pertence a um partido e que está coligado a outros dois. O gracejo de chamar para si a responsabilidade da derrota, como fez, parece excesso de retidão. Mas pode ser só excesso de arrogância e alheamento. Partidos estão com ele. E alguns milhões de brasileiros que não querem Lula na Presidência por mais quatro anos.

É bom que a crista esteja à altura dos poucos votos que tem. E que passe a ouvir os que estão com ele nessa trajetória — refiro-me ao PFL. Sim, ele vai ter meu voto. Mas não pretendo que seja um voto de protesto. Por enquanto, ele está mais com cara de anticandidato do que de candidato. Poucas coisas me irritam tanto quanto sua insistência em chegar de táxi aos lugares. No que respeita a moral cristã, é bom a humildade não ser excessiva a ponto de se confundir com uma forma de concupiscência; do ponto de vista político, isso não tem a menor relevância. O que era para ser um traço da frugalidade de seus hábitos acaba se confundindo como uma esquisitice, uma mania. Para ser franco, parece mais provincianismo do que humildade. Um tipo de humildade para a qual o povo não dá a menor pelota.

Meu artigo no Globo de hoje: "Opus diaboli"

Trechos do meu artigo no Globo de hoje chamado “Opus diaboli”: “ (...)Vi uma coisa entre pia e demoníaca na capa de uma publicação. Era a revista de esquerda Caros Amigos — cujo logotipo tenta remeter ao cirílico, como num panfleto bolchevista. (...) A chamada: “Os Códigos da Opus Dei”. (...) Como dizem que pertenço ao Opus Dei, pensei ser uma boa oportunidade de ter acesso aos “códigos” que me regem sem que eu mesmo saiba. (...) Não costumo ler publicações da esquerda brasileira porque são boçais. Na Caros Amigos mesmo há uma senhora que classifica de “suposto” o seqüestro de soldados israelenses pelo Hezbollah: ela desconfia da idoneidade antiimperialista até de Hassan Nasrallah, rá, rá, rá... (...) A tese central da reportagem remete à idéia de que o Opus Dei faz lavagem cerebral nos seus adeptos. Claro, você pode ser, como disse Régis Debrey de Guevara, um partidário “do ódio eficaz que faz do homem uma eficaz, violenta, seletiva e fria máquina de matar”. É um estagio superior da consciência. Mas só será adepto de uma prelazia papal se for abduzido. Não sou do Opus Dei, como, aliás, sabe o Opus Dei. Mas, definitivamente, combato o opus diaboli. (...)”

Governo de SP quer PPP para presídios

No Estadão deste sábado: "O governo de São Paulo finaliza projeto de construção de novos presídios no Estado por meio de Parcerias Público-Privadas (PPP). O projeto piloto prevê abertura de 3 mil vagas, possivelmente em quatro novas penitenciárias, a serem construídas e administradas parcialmente pela iniciativa privada. O objetivo é concluir a proposta até dezembro, para que o próximo governador possa, em janeiro, lançar licitação e definir a empresa que tocará a obra. A concorrência será aberta ao capital internacional.São pelo menos dois os tipos de presídios terceirizados que podem ser construídos em São Paulo: o modelo de presídio industrial, onde os detentos trabalham e pagam parte de seu custo, e o do tipo flat, onde o Estado paga aluguel pelas celas. São Paulo necessita, em cinco anos, de 30 mil novas vagas. “O governador (Cláudio Lembo) pediu prioridade ao assunto. Até o final do ano teremos a modelagem de como fazer a parceria. A modelagem e a licitação são um processo rápido. Queremos deixar tudo pronto para que o próximo governador possa tocar”, disse o secretário estadual de Economia e Planejamento, Fernando Carvalho Braga. "

Sem aliados, crise na campanha de Alckmin

Por Cida Fontes e Christiane Samarco, no Estadão deste sábado: "A campanha no horário eleitoral do rádio e da TV, a agenda de visitas aos Estados e a relação com os aliados evidenciaram nesta semana o tamanho da crise vivida pela campanha do candidato Geraldo Alckmin (PSDB). O que aconteceu na noite de ontem, em Palmas, capital do Tocantins, foi apenas o exemplo mais simbólico dos desacertos que cercam a candidatura tucana.Faltou pouco para Alckmin desembarcar em Palmas e não ter ninguém a recepcioná-lo. Como a primeira parte da agenda estava a cargo do PFL, os tucanos simplesmente deixaram por conta dos pefelistas a recepção, sem se dar conta de que a deputada Kátia Abreu (PFL-TO) havia decidido esperar o candidato em casa. O jeito foi improvisar uma recepção temperada por um discurso que expôs a fragilidade da aliança PSDB-PFL no Tocantins - quarto menor colégio eleitoral do País, com 882 mil eleitores.Em discurso de boas-vindas, Kátia Abreu pediu a Alckmin que compreendesse e relevasse suas diferenças com o PSDB. "Nosso maior adversário, hoje, em Tocantins, é o 45", disse a deputada, referindo-se ao número do PSDB na disputa eleitoral. "Sabemos da diferença entre o 45 de Siqueira Campos (cacique tucano e ex-governador do Estado) e o 45 de Alckmin, mas fica difícil passar isso para a população. Vamos tentar superar essa dificuldade e fazer o possível para que sua eleição possa ocorrer." Clique aqui para ler mais

Veja 3 – Diogo: a ginecomastia e a cara de Lula

Diogo Mainardi foi pesquisar para saber se os internautas estavam interessados em eleição. Descobriu na Folha Online que a notícia mais lida era sobre a ginecomastia a que tinha se submetido um comediante. E ele dá razão aos leitores. Qualquer coisa é mais atraente do que o horário eleitoral. Ele comenta o programa de Lula e faz um síntese perfeita desses dias: “O programa de Lula foi muito simples e eficiente. Primeiro apareceu Lula, com um sorriso apatetado, dizendo as mentiras de sempre e penando para seguir o teleprompter. Depois apareceu o retrato de um monte de gente feia e pobre. O locutor disse: ‘Lula tem a cara do povo’. É verdade. Nos últimos quatro anos, Lula enriqueceu. Colocou jaquetas nos dentes e Botox na testa. Mas continua com uma cara autenticamente pobre. Mais do que Alckmin. Mais do que Heloísa Helena. Mais do que Cristovam Buarque. O maior atrativo de Lula é sua cara. O eleitor pobre olha para ele e vota.Lula só conseguiu chegar até o fim de seu mandato porque tucanos e pefelistas calcularam que seria melhor poupá-lo, aplicando-lhe um astuto ‘impeachment nas urnas’. O que nenhum deles parece ter compreendido foi que a contrapartida do impeachment nas urnas era a anistia nas urnas. Foi para isso que Lula trabalhou nos últimos meses. Se sua cara de povo o reeleger, o lulismo será perdoado de todos os seus crimes. Aos eleitores, restará apenas discutir sobre a ginecomastia.” Íntegra da coluna aqui para assinantes

Veja 2 - Bastos e o despotismo esclarecido

Márcio Thomaz Bastos é meu ministro predileto, se é que me entendem. Ninguém como ele representa a essência do governo Lula: uma tentativa de despotismo esclarecido. Como ele próprio é um dos poucos esclarecidos, o lado despótico é o que se sobressai. Em entrevista a Otávio Cabral, nas páginas amarelas da Veja desta semana, à sua maneira, culpa unicamente o governo de São Paulo pela crise de segurança e diz que talvez tenha faltado “um pouco” de recursos. Manipula os números à vontade. Diz, por exemplo, que, no que respeita ao Fundo Nacional de Segurança, investiu mais do que o governo passado. É só uma esperteza. Nas verbas globais, o corte foi brutal. Em 2002, o governo federal repassou a São Paulo R$ 223 milhões para a área; em 2005, R$ 29,6 milhões. Bastos que vá consultar o Siafi. Seu dinheiro para a segurança é de mentira. No ano passado, foram executados só 28,7% do Orçamento. Ele deve estar falando de gastos autorizados, o que é coisa bem diferente. Esperto, ao citar dois Estados que saberiam equacionar o problema carcerário, escolhe Ceará e Pará, governados por tucanos. Mensagem: “Nada do que digo é partidário”. Insiste em que o Exército seria útil a São Paulo. Balela. Só se o PCC colaborar. Faz também proselitismo das vagas oferecidas ao governo de São Paulo no presídio federal de segurança máxima de Catanduvas. Com um tonzinho meio escandalizado, diz que os Bandeirantes não mandaram ninguém para lá. É fato. Não é necessário. O Estado pode manter, se preciso, em regime de RDD, aqueles que precisam da disciplina máxima. Esse tipo de vaga não falta. Por que Bastos não tira de São Paulo os 1.600 presos federais? Resposta: porque ele não tem onde os colocar. Verdade ou mentira, doutor? Bastos também se orgulha de sua espalhafatosa Polícia Federal e seus 1.800 presos, a maioria caçada em operações gigantescas, com a devida cobertura da mídia. Seu destino e seus processos são tão nossos conhecidos quanto os dos que estão em Guantánamo... O que se sabe é que dona de butique é um perigo; mensaleiro, não. Até agora, a quebra do sigilo bancário do caseiro não tem culpados. Bastos diz que é “acusado” de ser o autor da tese do caixa dois. E depois afirma ser também “acusado” de ter dito que caixa dois “é coisa de bandido”. E disse. Se tentou um paralelismo, não é preciso ser um causídico ilustre para concluir que, na prática, confessou ser o autor daquela defesa... Ao ser lembrado que a própria Veja apontou as suas digitais no caso de Francenildo, o caseiro, sai-se com a retórica libertária: "Imprensa existe para ser livre, não para ser justa". Finalmente, informa que reforçou a sua segurança em razão de PCC e afins. Bem, se for só por causa da facção paulista, segundo gravações publicadas pela Veja na semana passada, ele pode dormir tranqüilo. O PCC manda matar tucano e votar em petista. Assinante clica aqui

Veja 1 - Da cara-de-pau à cara com botox: lisa como bumbum de bebê


“Minha alma cheira a talco, como bumbum de bebê/ de bebê”, já cantou o agora ministro Gilberto Gil num rasgo de infantilismo poético. No caso de seu chefe, Lula, não é exatamente a alma que está lembrando aquela aliteração estupenda: a cara de Lula é que anda lisa como, bem, um “bumbum de bebê”. Se ele, por dentro, não se incomoda com as acusações contra seu governo, Veja descobriu por que parece não se incomodar também por fora: botox. O homem virou fã do produto. Como se vê, pode não ter lá as ambições de FHC, o “vaidoso” (segundo o PT), de querer ser lembrado por sua obra. Mas não tem nada contra a que tentem associá-lo a um corpinho bonito. Não só ele. Também a primeira-dama, Marisa Inserção Internacional Letícia, é chegada à prática, além da cirurgia plástica. O PT, que já descobriu uma espécie de botox moral, também aderiu àquele que deixa a cara mais lisa. Somada à cara-de-pau, tem-se a equação vencedora. Leia trecho da reportagem de Juliana Linhares e link apenas para os assinantes da revista: “O presidente Lula aderiu ao partido do Botox. Ele vem se mostrando na televisão com uma face mais lisa, mais firme e mais jovem graças a sucessivas aplicações de Botox – a toxina que puxa, estica e remoça, item obrigatório nos pacotes de beleza oferecidos pelas clínicas dermatológicas (...). O embotocamento de Lula foi feito pela clínica paulista Denise Steiner. Lá, fotos do presidente rejuvenescido são exibidas aos clientes como um exemplo de caso de homem maduro e ilustre que, livre de preconceitos, aderiu a um procedimento estético moderno. Lula já colocou Botox três vezes. A primeira sessão ocorreu no início de 2004. A última, dias antes da entrevista que ele concedeu há duas semanas ao Jornal Nacional, da Rede Globo. As aplicações foram feitas pela própria Denise Steiner. Todas as vezes, ela viajou de São Paulo para Brasília, sempre no fim da tarde de sexta-feira, para atender o presidente na residência oficial. Nessas visitas, além de renovar o Botox de Lula, a médica usou ácido retinóico nas bochechas, no nariz e na testa do presidente. O procedimento serve para provocar uma leve escamação química na pele, que se renova e ressurge com menos manchas. O ácido também tem a função de ajudar a fechar os poros do rosto de Lula e diminuir o aspecto oleoso de sua pele. O tratamento é conhecido pelo seu nome em inglês, peeling. Uma das mais conceituadas dermatologistas de São Paulo e também uma das mais caras (só a consulta custa 390 reais), Denise Steiner foi indicada a Lula por Pedro Albuquerque, o cirurgião plástico responsável pelas cirurgias estéticas realizadas pela primeira-dama desde 2002 (veja quadro). (...) O Botox de Lula foi aplicado em quatro músculos: frontal, corrugadores, prócero e orbitais.” Clique aqui para ler mais

PT volta a pautar a mídia como antes

Continua impressionante a capacidade do PT de pautar a mídia, em especial o jornalismo impresso. A cobertura das ações de Lula consegue ser um pouco mais crítica porque sua vantagem é muito grande. E ninguém se sente tentado a fazer justiça com o próprio teclado. Mas já se nota um tom meio jocoso quando o assunto é Geraldo Alckmin. É bem verdade que a campanha se esforça para fazer tudo errado. Na disputa em São Paulo, a coisa chega a ser dramática. Vejam o falso caso dos migrantes. Os jornalistas que cobrem a campanha, em parceria com Aloizio Mercadante, decidiram que Serra culpou os migrantes pelos problemas no ensino. Trata-se de uma mentira. Mas não é uma mentira porque eu quero que seja mentira. É mentira porque há a transcrição do SPTV, e fica claro que ele não disse o que lhe atribuem. Mas os jornais foram unânimes. A campanha eleitoral do petista evidenciou de forma vexaminosa: parece que os títulos da mídia impressa foram combinados num gigantesco pool. De certo modo, foram mesmo. É o pool ideológico. É um dos casos mais escancarados de que tenho memória porque a entrevista está disponível a quantos queiram ler. E não adianta nada. O jornalismo foi tão bem nessa que serviu para endossar a edição criminosa que o programa de Mercadante fez da entrevista — o que, de resto, transgride o acordado com a emissora.

Sexta-feira, Agosto 18, 2006

Os números de SP e a campanha na TV

O tucano José Serra continua a vencer a disputa com folga em São Paulo segundo levantamento do Ibope, feito entre anteontem e ontem, depois do início do horário eleitoral. Em relação ao levantamento anterior (1º de agosto), o tucano oscilou, no primeiro turno, de 46% para 43%, Mercadante continua com os mesmos 15%, e o peemedebista Orestes Quércia foi de 8% para 9%. Embora o tucano vença no primeiro turno, o instituto fez simulação de segundo: Serra venceria Mercadante por 56% a 24%, e Quércia, por 57% a 19%. Há uma semana, esses números eram, respectivamente, 59% a 23% e 61% a 19%. Vale dizer: no primeiro turno, a diferença de Serra para Mercadante era de 31 pontos; agora, é de 28. No segundo, era de 36 pontos e passou agora a 32. Considerando a margem de erro de dois pontos para mais ou para menos, tudo pode estar onde estava antes. Mas há que se considerar a possibilidade de que a violenta campanha negativa de Mercadante esteja surtindo algum efeito, ainda que pequeno. Mesmo que não lhe dê votos, pode tirar alguns de Serra. É preciso que o PSDB monitore isso muito bem.
Não há por que esperar qualquer lance de, como vou dizer?, ética técnica dos adversários. A Globo combina, por exemplo, com os candidatos que suas entrevistas não podem parar no horário eleitoral. Mercadante descumpriu e pôs no ar o som de uma entrevista de Serra ao SPTV. A fala está cortada e sugere que o tucano culpa os imigrantes pela baixa qualidade de ensino em São Paulo. Para tanto, o petista foi ajudado pelo jornalismo impresso, que cravou isso em seus títulos — aliás, sem exceção. É um momento de vergonha coletiva. Na entrevista, o tucano referiu-se à demanda permanente por vagas nas escolas, o que deslocou, segundo avaliou, a prioridade para a questão quantitativa. Mas, em nenhum momento, acusou os imigrantes do que quer que seja. Mercadante havia feito a acusação em seu site. Por ordem da Justiça, teve de retirar. Agora, levou ao horário eleitoral gratuito. É o que lhe resta: chutar a canela e colar a sua imagem a Lula.
Por enquanto, a campanha de Serra continua a ignorar Mercadante, Hoje, fez-se uma leve referência a candidatos que estão optando pelo golpe baixo e tal. Mas nada muito agressivo. Eu não sei se as fitas dos bandidos do PCC recomendando voto no PT ficariam bem na campanha do candidato do PSDB a governador ou à Presidência. Parece-me que seria o caso de ir parar no horário eleitoral de Alckmin. Uma leve mexida nos índices, ainda que dentro da margem de erro, indica que campanha negativa não é irrelevante, não. A de Mercadante pode ser incompetente e mentirosa: mas ele está tecnicamente certo em não mimetizar a propaganda de Serra. Campanhas propositivas, animadas, otimistas, são para quem está na frente — e muito. Como é o caso. Embora insista aqui na necessidade do monitoramento. Ele não vai desistir dessa opção.
Mercadante, nós já vimos, mexe com os números como quer. E com a ajuda de setores do jornalismo. Ele acusa, por exemplo, uma queda na demanda por escola em São Paulo. É uma tolice. Em bairros antigos da cidade, muitas vezes, cai mesmo a demanda escolar porque a classe média estabelecida tem menos filhos, havendo um envelhecimento da população. O problema está justamente nas periferias, onde a demanda é sempre superior à capacidade de resposta dos poderes públicos. Afinal, a gestão passada na Prefeitura deixou nada menos do que 60 escolas de lata para a atual — já acabaram, felizmente. Por quê? O fato de o número de alunos cair, sei lá, na Mooca ou no Ipiranga, não implica que caia também em Sapopemba, Campinas ou Ribeirão Preto.
A população de São Paulo, parece, na sua expressiva maioria, fez a sua escolha. Mercadante tentará de tudo para levar o embate para o segundo turno, claro, porque aí espera contar com um Lula vitorioso como cabo eleitoral. Parece difícil que consiga. Poucos apostam que Alckmin consiga, mesmo que chegue ao segundo turno, superar os 21 pontos que o separam de Lula (53 a 32). Precisaria acontecer uma hecatombe na campanha tucana para que, numa eventual segunda rodada, Mercadante tirasse a fantástica diferença de 32 pontos. De todo modo, acho que os números das duas pesquisas do dia fornecem material de reflexão sobre a campanha negativa. Ainda temos quase cinco semanas pela frente.

Errei; já corrigi

Tinha feito uma besteira. Dois leitores, Gaertner e Hebox, perceberam. Eu já tinha corrigido quando vi os comentários, mas chamo a atenção para que o erro não passe adiante: em vez de Samuel Johnson, escrevi Paul Johnson (um dos meus velhinhos conservadores, e católico, prediletos) na nota sobre Diogo. É que alguns volumes dele estão aqui do lado para um ensaio que estou fazendo. Não confundi, não. Vivo citando a frase de Johnson, o Samuel. Como sempre, agradeço a vigilância.

O programa está bom? Perguntem ao Ibope

Viram a pesquisa Ibope? Pois é. O resultado não poderia ser mais eloqüente, não é? Há dez dias, Lula tinha 46% das intenções de voto; agora, tem 47%; Alckmin tinha 21%; continua com os 21%; Heloísa Helena tinha 12%: manteve o número. No segundo turno, o petista tinha, no dia 10, 51%; agora, 53%. Alckmin estava com 33%; agora 32%. O governo Lula, aquele que Alckmin faz questão de não atacar, era considerado bom ou ótimo por 41%. Ficou igual. Eram 35% os que o consideravam regular; agora, 37%. Ruim ou péssimo passou de 22% para 21%. Aprovavam o governo 56%; aprovam agora 57%. Eram 37% os que desaprovavam. Chegam, agora, a 34%. Tudo com margem de erro de 2 pontos para mais ou para menos. É claro que ainda voltarei a este assunto depois da propaganda eleitoral gratuita. Mas eis aí. Alckmin dizia, desde que entrou em guerra santa contra Serra, ainda quando este era líder das pesquisas, que o começo do horário eleitoral mudaria tudo. Com a campanha que está fazendo? Santo Deus! ACM diz que nem assiste aos programas; recomendou que fossem retirados do ar. É o que tenho vontade de fazer, não fosse a minha obrigação profissional. É isso aí. Agora que nós já sabemos até onde fica o quarto em que dormia o menino Geraldo Alckmin (e eu com a light?, como se dizia em Dois Córregos), não seria o caso de despertar do sono profundo? Campanha sem bater em Lula, com o governo com 57% de aprovação? Só pode ser piada. Como vocês vêem, caros leitores, Tio Rei só diz o que pensa, sem consultar ninguém. Falei, no primeiro dia, que o programa era um desastre. O programa é um desastre. Vamos ver daqui a pouco. Espero não ter de ver de novo a foto de quando Alckmin ainda tinha cabelo... Aécio disse ontem que não precisa mudar nada. Que bom! Para ele. Ou então chamem Gabriel Chalita para cantar e declamar no horário eleitoral. Ele foi um estrategista muito ativo nos tempos da disputa interna... Tá tudo errado. Acorda, Geraldo.

Diogo Mainardi: a litigância de má-fé tenta calar quem não reza segundo a cartilha dos petralhas

Está em curso uma tática clara de intimidação de quem não reza segundo a cartilha oficial. Quando Evo Morales disse que a Bolívia cedeu o Acre ao Brasil em troca de alguns cavalos — o que, de resto, é mentira —, Diogo Mainardi fez uma piada no Manhattan Connection pedindo os cavalos de volta ou algo assim. Diogo, como eu, é de São Paulo. E a gente adora falar mal do torrão onde nasceu, firmes na convicção de Samuel Johnson de que o patriotismo — pior ainda quando assume a versão bairrista — é último refúgio dos canalhas. Quando algum carioca ou mineiro desce o sarrafo em São Paulo, eu ajudo. Também não tenho disposição para defender o Brasil. Já acho algo solitário e autoritário não poder comparar planetas. O único território que me interessa é o do indivíduo. E sei que Diogo também é assim. A gente se contenta em viver, deixar viver e amar os que amamos. Só. Todo o resto é uma tentativa quase desesperada para que nos deixem em paz.

Por que tudo isso? Por conta daquela brincadeira, nada menos de 63 petistas do Acre decidiram entrar com queixa-crime contra Diogo. São processos individuais, feitos para aporrinhar, para chatear. Ele já está com uma penca de processos. Eu também. Boa parte não passa de encheção de saco, que não dá em nada. O jeito vai ser a gente montar um ONG (ai, Jesus!) para processar os que nos processam. Acusação: litigância de má-fé. Hora de começar a inverter o jogo. Querem transformar o Brasil num imenso tribunal para ameaçar os que se opõem ao petralhismo. É como eles pretendem fazer a sua revolução cultural. Por eles, estaríamos nas ruas, com as mãos amarradas para trás, chapéu de burro na cabeça e cartazes desaforados no peito, levando pedras e cusparadas. Hora de reagir.

PS: Ontem, o governador de Minas, Aécio Neves, disse que o Brasil caminha para 16 anos de governo com origem em São Paulo (Lula é pernambucano, devo lembrar, e vai ser reeleito pelo Nordeste e por Minas). Afirmou em seguida que essa hegemonia paulista não é boa para o Brasil. Só posso entender que ele culpou o “meu Estado” (estou ofendidíssimo!!!) pelas mazelas do Brasil. Estou pensando em processá-lo. O que vocês acham?

PS: Espalhem na rede. Há um movimento de intimidação que agora se dá pela via judicial. É mais uma manifestação do Estado policial que se está tentando criar no Brasil.

SPTV 2 - Por que o jornal beneficiou Mercadante e o que deixou de ser questionado

Bem, o que vai abaixo sobre a diferença de tratamento dispensado a Serra e a Mercadante no SPTV fala pela própria evidência das perguntas. No caso da primeira, vocês verão na integra, Mercadante, claro, falou que não tinha nada a ver com mensalão. Então emenda o jornalista: “O senhor realmente não foi citado, mas a cúpula do seu partido (...)”. Errado. Foi citado, sim. E no caso mais rumoroso. Duda Mendonça disse que recebeu dinheiro do caixa dois, em moeda estrangeira, depositado no exterior, pela campanha de Lula. Mais: disse que a campanha de Mercadante era feita junto com a de Lula, num pacote só. Logo, o mesmo caixa dois que pagou uma pagou outra. A desinformação dos jornalistas colaborou com o petista.

Mais: depois de Mercadante ter sido tão enfático em negar qualquer envolvimento, não seria o caso de lembrar que ele anda com mensaleiros para cima e para baixo? A começar de João Paulo Cunha, seu cabo eleitoral mais importante, fartamente elogiado por ele nos jornais? A pergunta sobre a maioria na Assembléia é de uma parvoíce que não merece comentário. A seguinte, sobre educação... Bem, aí é mesmo para dar a chance a Mercadante de recuperar a mntira canalha de que Serra teria discriminado os imigrantes. A Justiça tamnbém decidiu que é mentira. Mas ele seguiu falando o que lhe deu na telha. Ele, o homem que votou contra o Fundef — o que também, acredito, o jornalismo do SPTV ignorava. Mais: é mentira que tenha caído a demanda por vagas em são Paulo. Também não foi contestado. Na seqüência, vem uma indagação cândida como as flores: “qual é o seu projeto?” Voltem às questões feitas a Serra e vejam se há algo parecido.

As três perguntas seguintes dizem respeito aos CEUs, o que é mel na sopa para Mercadante, que pôde, então, falar à vontade. Na última questão, sobre segurança, mais uma vez apareceu o famoso “o que o senhor faria?”. Nada, nada mesmo, que remetesse de longe às responsabilidades que são também do governo federal. Com respeito aos colegas, foi uma entrevista vergonhosa. Dava para ser duro?Ah, dava. A exemplo do que fizeram com Serra. Querem ver?

1) Senador, o sr. diz defender a educação, mas seu partido votou contra o Fundef. Por quê?
2) Senador, por que o senhor disse que tem doutorado pela Unicamp, quando o senhor é apenas mestre?
3) Senador, o senhor votou a favor de um projeto que criaria uma zona franca que aniquilaria São Paulo. E disse que o fazia em homenagem a Sarney. O senhor tem de homenagear São Paulo ou de homenagear Sarney?
4) Senador, Duda Mendonça disse que o mesmo dinheiro que pagou a campanha de Lula, com caixa dois, pagou a sua. É verdade?
5) Senador, o senhor não se constrange de andar na companhia de mensaleiros?
6) Senador, por que Lula nunca quis levar o senhor para o Ministério?
7) Senador, o senhor era defensor de um Plano B para a economia porque dizia que este não daria certo. O senhor se arrepende?
8) Senador, o senhor era contra o Plano Real. O senhor errou?
9) Senador, o pessoal de Marta Suplicy não faz campanha para o senhor. Por quê?
10) Por que o sr. votou contra a Lei de Responsabilidade Fiscal?
Clique aqui para ler íntegra

SPTV - 1: Jornal, que foi implacável com Serra, faz entrevista com Mercadante e levanta bolas para petista cortar

O SPTV, da Rede Globo, tem um tanto a aprender com Willim Bonner e Fátima Bernardes quando o assunto for equilíbrio nas entrevistas, ainda que se pudesse debater se levar o candidato a córner o tempo inteiro é uma boa prática. De todo modo, foi o que ambos fizeram no Jornal Nacional com o tucano Geraldo Alckmin e com o petista Luiz Inácio Lula da Silva. Só Heloísa Helene, com sua logorréia, conseguiu levá-los no bico. Já o SPTV deu um tratamento absolutamente desigual aos candidatos ao governo José Serra (PSDB) e Aloizio Mercadante (PT). Não acreditem em mim. Acreditem nas perguntas dos jornalistas, que reproduzo abaixo. Depois de cada uma, há parênteses para vocês marcarem mentalmente: P (positiva), NT (neutra) e NG (negativa).

PERGUNTAS PARA SERRA
- O senhor assinou um documento, em cartório, prometendo ficar na prefeitura de São Paulo até o fim do seu mandato, mas deixou o cargo para disputar o governo do Estado, como é que o senhor pretende convencer o eleitor de que a sua promessa é pra valer? ( )

- O senhor não chegou a cumprir as promessas de sua campanha, até mesmo porque o senhor permaneceu muito pouco tempo, apenas um ano na prefeitura. No caso dos ônibus, as reclamações cresceram muito, os paulistanos avaliaram negativamente.( )

- Candidato, se eleito governador, o senhor vai ficar até o fim ou pode achar que está tudo arrumando e sair candidato? ( )

- Candidato, uma grande preocupação dos paulistas, a segurança pública, a cidade acaba de sofrer mais uma série de ataques dos bandidos. Isso não surgiu de repente, isso surgiu nos últimos 12 anos que foram do governo do ser partido, o PSDB. O PSDB errou na sua avaliação? Na administração da segurança pública? ( )

- O senhor manteria esta linha da segurança pública? ( )

- O senhor enfrentaria tendo como secretário o senhor Saulo de Abreu? O senhor manteria ele no cargo? ( )

- Nós temos uma outra questão seria em São Paulo, que é a questão do ensino, que é a baixa qualidade da educação. São Paulo foi reprovada em educação, nas provas Brasil, Saebe. ( )

- Candidato, então me permita contestar. Dois professores na sala de aula, hoje a gente tem em média, chega até 50 alunos na sala de aula, a maior parte do dinheiro na educação, hoje, a maior parte é para pagar os professores, mais de nove bilhões para pagar os professores que já estão, quer dizer, este número chegaria a dezenove bilhões para pagar este segundo professor em sala de aula. De onde vai sair este dinheiro? ( )

PERGUNTAS PARA MERCADANTE

- Candidato, o senhor, desde o começo do governo Lula, está na liderança do governo do senado, deixou agora, justamente para se candidatar. Durante este período, o PT vive uma grande crise ética e moral que mexe muito com o partido. Como é que o senhor pretende convencer o eleitor que, durante todo este tempo, o senhor não sabia de nada? ( )

- O senhor realmente não foi citado, mas a cúpula do seu partido, entre eles o presidente do seu partido, o ministro da Casa Civil, José Dirceu, que inclusive foi caçado nesse escândalo do mensalão. O que o eleitor quer saber é, se o PT, no seu governo, caso o senhor seja eleito, se o PT vai combater este tipo de prática que atingiu uma cúpula com denúncia no Ministério Público Federal. ( )

- Agora, se eleito, o senhor vai ter que ter maioria na assembléia para aprovar os seus projetos, como é que você vai ter esta maioria? Bom lembrar que o mensalão começou com esta história. ( )

- Candidato, o senhor tem dito que gostaria de ser o governador da educação. O que o senhor pretende fazer na educação no Estado? ( )

- Qual é o seu projeto? ( )

- O senhor é a favor dos Ceus que foram criados aqui em São Paulo, pela prefeita Marta Suplicy? ( )

- O senhor faria [os Céus] no Estado? ( )

- O senhor tem de onde tirar dinheiro para isso? Porque os Ceu, por exemplo, é um projeto caro. ( )

- Vamos fazer uma última pergunta sobre segurança. O que o senhor faria para resolver a crise que atinge o Estado no setor de segurança? ( )

Bem, se vocês fizeram aí as suas anotações, reparem quantas são as vezes em que se tenta botar Serra contra as cordas e quantas são aquelas em que se levanta a bola para Mercadante cortar. Sem contar que faltou informação ao jornalismo para contestá-lo. E direi na nota seguinte por quê. Assim como se disse a Serra um “permita-me contestar”, darei ao SP-TV algumas dicas de como e por que contestar Mercadante. Depois ponho a íntegra da entrevista dele, com respostas. Volto a tema na próxima nota. Foi voluntário? Não sei. A intenção diz respeito à consciência dos entrevistadores. Cada um com a sua. O resultado é uma questão jornalística e política.

Um professor, um "tucanófilo" e dois tumores

Muita gente não gostou da minha reação a Paulo Moura, que me chamou de “tucanófilo” num texto. Cito o nome, o que não havia feito no texto original, porque ele próprio se identificou. E há também quem tenha aprovado. Bem, vou dizer o quê? “Tucanófilo” quer dizer, no mínimo, “amigo dos tucanos”, para ser simplesinho. No ambiente do debate político e ideológico, implica estar a serviço de alguém e ser um articulista cujo viés sempre interessa aos tucanos. E eu sou amigo da verdade, não de tucanos. Até porque, quando vocês conseguirem identificar o que é o pensamento tucano, me avisem. Basta ver o que escrevi sobre a tática de Aécio Neves.

Prepotência? Não. Eu me disse “amigo da verdade”, mas não da verdade universal. Apenas da minha. Do que enxergo. Não penso em bloco. Não pertenço a clube. Tenho horror ao espírito de manada. Não acredito nem em artigo escrito a quatro mãos. Se notarem bem, nem mesmo busco dar sotaque científico, sociológico que seja, ao que penso. Quando cito alguém ou alguma teoria, é para dizer a referência com a qual estou lidando. Um instrumento a mais para o leitor.

Uma das razões por que Primeira Leitura fechou as portas era a sua fama, pespegada pelo PT, de “tucanófila”. Fosse mesmo, talvez não tivesse fechado. O e-mail de Paulo Moura é simpático, mais até do que o de alguns de seus fãs. Ele é professor? Então sabe que as palavras têm sentido. Quando mete lá o adjetivo “tucanófilo” em mim, qualquer reprodução do que penso sai alterada por esse filtro. É impossível que não saiba disso. Leandro Vilas, por exemplo, não gostou do que escrevi e aponta até um “recalque trotskista” na minha reação. E é peremptório: “estrilou, sim”. Embora seja discutível que se possa falar em “recalque” só porque fui trotskista, prefiro isso a tucanófilo. Recomenda-me que leia outras análises de Moura. No que me diz respeito — e reagi ao que me diz respeito —, não muda nada.

Pois bem: pensando o que penso, sou tucanófilo; Moura, pensando o que pensa, é o quê? O meu ponto de vista estaria comprometido pelas minhas simpatias; o dele não? Como é que o professor Paulo Moura vai fazer para tirar do seu texto a evidência de que uma das razões por que ele diz que estou errado deriva de minhas afinidades eletivas? Há ainda quem tenha me criticado porque vivo chamando este ou aquele de “petralha”, o que me impediria de reagir, entende-se, à qualificação de tucanófilo. Errado. Chamo, sim, quando acho que é o caso. Daqui a pouco, vou comprar uma nova briga, vocês vão ver. Mas nunca disse que a pessoa não pode reagir. Cada um faça o que achar melhor.

Olhem aqui. A minha independência me é muito cara. Sou trabalhador, posso escrever caminhões de texto por dia e, se minha pena estivesse aí para quem desse mais, certamente teria feito até escolhas econômicas mais sensatas. Sem assinar, posso lhes garantir que consigo defender Lula muito melhor do que alguns sabujos que vivem lhe lambendo as botas. Mas prefiro fazer como faço. E, se for o caso, quebro o pau também com meus potenciais aliados. Foi assim quando escrevi 40 textos (não um, dois ou dez, mas 40) defendendo a candidatura de Serra à Presidência. E enfrentei patrulha de todo lado, a começar dos entusiastas da candidatura de Alckmin, que acharam que seria mel na sopa fazer dois trabalhos que consideraram simples e corriqueiro: 1) tornar Alckmin conhecido; 2) mudar a opção de uma larga fatia do eleitorado. Leandro me diz que Paulo Moura não é nenhum Chalita. Ainda bem. Um já basta. Penso o que penso sozinho, eu com os meus gibis do Tio Patinhas.

PS: Em seu e-mail, Paulo Moura deixa claro que não tentou ser doloso e que vai continuar a ler os meus escritos. Poderia ter continuado a ser sutil, mas não resistiu. Eu entendo. Fazendo referência aos tumores que extraí da cabeça, escreve: “Cuide-se, pois dizem que uma das causas do câncer e outras doenças da alma, é a raiva e a agressividade, dentre outras emoções negativas da mesma natureza.” Bem, Paulo. Não tive câncer. Os tumores eram benignos. Fossem malignos, não seriam uma “doença da alma”. Renego as teses que culpam o doente por sua doença. Isso, pra mim, é coisa da Igreja Universal do Reino de Deus. Costumo dar pouca bola a sujeitos indeterminados — “dizem”. Respondo a pessoas, quando têm nome e sobrenome, como você. Não entendi por que você insiste em falar da minha doença. Será que também ela compromete o meu pensamento, a exemplo da minha "tucanofilia"?

PS2 - De resto, Moura, hoje, consta, tem Ibope na Rede Globo. Estou torcendo, acredite, para que você esteja certo sobre o programa de Alckmin, e eu, errado. Leandro pode não acreditar, mas, às vezes, prefiro errar. É raro, mas acontece.

Ai, que preguiça!

Me dá até uma certa preguiça repetir certas coisas. Mas vá lá. A última tolice influente na crônica política é que o PT estaria agastado porque o marqueteiro de Lula decidiu abolir a sigla da campanha. Ah, não façam isso comigo, não... Ricardo Berzoniev não é meu pensador predileto, mas este bancário está muito longe de ser burro. É claro que o objetivo primeiro é eleger Lula, tentar estabelecer a maior dianteira possível. O resto, o partido, vem depois. Se não fizer uma grande bancada, os companheiros se aboletam no Executivo, nas estatais etc. E é bom não apostar que a bancada petista será assim tão menor. Infelizmente, não acredito nisso.

Quem disputaria o espólio? O partido tem sólidos bolsões hoje espalhados Brasil afora. E também é beneficiário do descrédito dos políticos e do Congresso. Se são todos iguais, como certo jornalismo ajuda a espalhar, por que não o PT? De resto, será sempre tolice e perda de tempo tentar arrumar contradições entre Lula e o PT. Acho que foi ontem que ele próprio disse: “Eu fundei o PT”, com ênfase no “Eu”. Poderia ter dito: “O PT é sou eu". E é.

Já o caso de Alckmin, aí, sim, é grave. Há um cheiro de cristianização no ar. Os marqueteiros, como bem observa Renata Lo Prete — que tem miolos — na Folha de hoje (clique aqui para ler), têm lá suas próprias preocupações. Atuam como verdadeiros pensadores políticos, o que não são — isso já sou eu que estou dizendo. Como pode ser a mesma a, digamos, estética das campanhas de Serra e de Alckmin se estão em situações tão distintas nas pesquisas? Será que os homens responsáveis pelas campanhas descobriram o emplastro de Brás Cubas? Cura até a melancolia da humanidade? Ninguém está pedindo que a campanha de Alckmin adote, sei lá, o padrão Mercadante: o realismo socialista-cínico. O que se está pedindo é que se marque a diferença. Só isso.

Porque, com efeito, sem uma boa arrancada no primeiro turno, o que começa a se estreitar é o palanque. E os aliados regionais, já difíceis, vão rareando. E, aí, sobrevém o baixo-astral. Lula pode se afastar do PT à vontade porque ele é o PT. Mas e Alckmin? Sem o PSDB e o PFL realmente engajados, o que é ele fora de São Paulo? Tomara que os marqueteiros estejam certos, e eu, errado.

Com Lula, Igreja Católica vira mulher do padre

Pobre Igreja Católica no Brasil. Virou mulher do padre! Lula, como sabemos, trai qualquer um que não lhe seja interessante na hora. E a Igreja, mesmo corrompida pelo esquerdismo bocó, tem lá suas exigências éticas, que o Apedeuta, claro, não consegue cumprir. Resultado: dançou. Lula escolheu o cristianismo de resultados dos neopentescostais da prosperidade, sobretudo da própria. Bem feito! Quem sabe os padres passem a se preocupar um pouco mais com religião e menos com movimentos sociais de esquerda. Trecho e link: “Enquanto Lula avançou entre evangélicos, balançaram suas relações com a Igreja Católica, sua aliada histórica. Durante o mandato do petista, a CNBB atacou a política econômica, o assistencialismo do Fome Zero, o valor do salário mínimo. Em documento de orientações para as eleições deste ano, dá mais uma estocada. ‘O resultado das eleições de 2002 despertou grandes expectativas de transformação social. Aos poucos, o projeto de poder se sobrepõe à busca de um projeto de nação socialmente mais justa.’, afirma o texto." Clique aqui

Não respeito religião mais nova do que meu uísque

Vejam que notícia interessante nos dá Fábio Zanini na Folha desta sexta: Lula está pensando em fazer uma espécie de Carta aos Evangélicos. Huuummm. A campanha tucana, claro, é bem capaz de buscar também os seus próprios evangélicos. Eu, claro, que não sou tucano, escolheria os católicos para fazer a festa. Mas isso que estou dizendo não tem a menor chance de prosperar. Podem fica tranqüilos. Em tempo: a campanha de Lula não visa às denominações históricas, gente séria, que não faz milagre na TV nem faz dumping com o demônio. É para pegar aquela turma da pesada mesmo, as seitas neopentescostais, das lambisgóias e dos folgazões de Deus. Nojo profundo. Não consigo respeitar nenhuma religião mais nova do que o uísque que eu bebo. Trecho da matéria, seguido de link: “O presidente Luiz Inácio Lula da Silva planeja uma ofensiva para conquistar o voto evangélico, que inclui a participação em três eventos nos próximos 40 dias, a montagem de comitês direcionados a esse público em todos os Estados e a divulgação de uma carta em que o petista pede votos e orações. O PT coloca a conquista dos evangélicos como uma das prioridades da campanha, ao lado do voto feminino e do crescimento na região Sul do país. Para os lulistas, os evangélicos estão órfãos na campanha presidencial, após a saída do ex-governador Anthony Garotinho (PMDB-RJ) do páreo. De acordo com o último censo do IBGE, de 2000, a parcela da população brasileira que se declara evangélica é de 15,41%. Os petistas acham que hoje ela já está chegando a 20%. Clique aqui para ler mais

Quando a estupidez está do lado de cá

Os mesmos imbecis que chegaram a defender que José Serra não deixasse a Prefeitura de tanto que queriam ver Geraldo Alckmin candidato à Presidência defendem agora que a propaganda eleitoral tucana continue na pasmaceira em que está. Um deles até chegou a me citar num blog aí, chamando-me de “tucanófilo” e dizendo que “estrilei” com a propaganda. O sujeito se define como cientista político. Nunca ouvi falar. Nunca li nada dele. Fui procurar se escreveu algum livro, inexiste. Cheguei a ele porque um leitor mandou um link. Cientista lá para as negas dele. E quem “estrila” é china em puteiro quando não pagam o combinado. Tucanófilo é tucano com prisão de ventre. Quando e se eu me tornar tucano, aviso. Não preciso ser interpretado. Se esses cretinos tivessem sido ouvidos, não só Lula seria, como será (se nada mudar), reeleito, como o governador Cláudio Lembro estaria se preparando para deixar a cadeira para Mercadante. Não tenho vergonha que recuperem o que escrevi. Há uns bobocas por aí cujos textos não duram uma semana que têm a ousadia de expelir regras. A direita burra me irrita mais do que a esquerda burra. Porque nem mesmo fala em nome de, como é mesmo?, “um outro mundo possível”. É pura prepotência estouvada. De fato, irritante é a burrice. De qualquer lado. Agora têm a cara-de-pau de confessar que não sabem qual a saída. Ah é? Só sabem que não é para bater em Lula. Produziram montes de teoria sobre “potencial de crescimento”, “teto eleitoral”, “recall”... Então, agora sentem em cima.

Lula multado em R$ 900 mil. Chamem Okamotto

Já que Paulo Okamotto voltou à moda, creio que é chegada a hora de convocá-lo mais uma vez. Luiz Inácio Lula da Silva está com um novo papagaio, agora de R$ 900 mil. É a multa que lhe aplicou o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) por causa de propaganda eleitoral antecipada. E com o seu dinheiro, leitor. Em janeiro, a Casa Civil, a Secretaria-Geral da Presidência e o Ministério do Planejamento mandaram imprimir e distribuir nada menos de 1 milhão de cartilhas que se chamava “Brasil, Um País de Todos”. A frase é uma das marcas publicitárias do governo Lula e se dedicava a comparar as realizações do Apedeuta com as de FHC — tudo, claro, favorável adivinhem a quem. O PSDB acionou o TSE, e Lula perdeu por 4 votos a 2. Seu advogado, agora, vai recorrer ao Supremo Tribunal Federal. Se, quando era um duro, Okamotto podia pagar dívida de Lula de quase R$ 30 mil, talvez possa agora, quando recebe mais do que isso por mês, fazer outro favorzinho ao chefe.

Quinta-feira, Agosto 17, 2006

Okamotto está tenso, muito tenso

No dia em que Luiz Ignorário Lula da Sila concedeu a entrevista ao Jornal Nacional, vejam lá, vocês leram aqui a seguinte nota:

"Quem mente: Lula, Okamotto ou ambos?
Só uma coisinha. O doador universal Paulo Okamotto falou, sob juramento, no Senado que Lula nem sabia da dívida que tinha com o partido. E que ele, Okamotto, alma generosa, efetuou o pagamento sem que o chefe soubesse. Lula o desmentiu na entrevista ao Jornal Nacional: “O que eu disse é o seguinte: quer pagar você paga porque eu não vou pagar porque não devo ao PT.” Um dos dois está mentindo. E se forem os dois?"

Pois é... Como o presidente do Sebrae falou ao Senado sob juramento e como Lula, na prática, diz que ele mentiu, as coisas se complicam muito para ele. O PSDB, o PFL e o PPS protocolaram um pedido na Procuradoria Geral da República para que ele seja investigado. Qual a acusação? Falso testemunho — ou, então, quem mentiu em rede nacional foi ninguém menos do que o presidente da República. O valor do suposto empréstimo, em se tratando desses figurões, é irrisório: R$ 29,4 mil. Ocorre que Okamotto, nas finanças pessoais de Lula, parecia mesmo ser pau para toda obra. Teria feito algum outro pagamento? Tenho muito amigo pobre. Mas também tenho alguns ricos. Nenhum deles pagaria um papagaio meu de R$ 29,4 mil sem nem mesmo me avisar, só pra eu não fica chateado. E, à época, ao menos oficialmente, Okamotto era um pobretão — hoje ele está bem, com salarião que ele mesmo admite ser superior a R$ 30 mil... O Brasil é um hospício: um cargo indicado pelo presidente da República tem uma remuneração correspondente a quase quatro vezes o de quem nomeia... Mas este é outro problema. O fato é que Okamotto nem mesmo tinha um rendimento que lhe garantisse pagar a dívida.
E Lula é um insensível. Mesmo sendo o companheiro um “duro”, mandou ver: “Quer pagar, paga”. Okamotto, tudo indica, pagou. Com que dinheiro? Diz que foi com o seu. Como provar? Até agora, o STF não deixou quebrar o seu sigilo bancário. Mas as coisas se complicaram. Como fica a mentira dita para o Senado da República? Okamotto está que é uma pilha de nervos. O temor? Que as coisas venham resultar na quebra do sigilo. Como disse Lula ao JN: "É um direito não querer; ninguém gosta disso". Parece que Okamotto gosta ainda menos.

Minas já foi muito importante neste 2006...

O governador Aécio Neves disse que a sucessão de 2010 tem de passar por Minas. Ocorre-me que a de 2006 já passa, não é? Se vocês fizerem um retrospecto, verão que o pudim da oposição desanda quando dois mineiros da oposição são flagrados no valerioduto, embora não envolvidos com a quadrilha organizada para assaltar o Estado, conforme assegura o procurador geral da República. O PSDB e o PFL, em vez de dar o exemplo e cortar na própria carne, provando que o que era diferente também parecia diferente, preferiram acomodar, respectivamente, com senador Eduardo Azeredo e com o deputado Roberto Brant. Tudo se fez por Minas. Aécio não aceitava a hipótese de que Azeredo fosse punido. De jeito nenhum! Deu no que deu. O PT aproveitou a oportunidade e conferiu ares de verdade à falácia de que era todo mundo igual. Do ponto de vista político, a recuperação de Lula começa ali. Depois veio a convocação extraordinária do Congresso, igualmente desastrosa. Quando o escândalo atinge os dois da oposição e seus respectivos partidos os protegem, evidenciava-se que o problema era, então, da classe política, do Congresso. E, como aqui já se disse, sempre que o Congresso está fraco, Lula está forte.

Sobre estratégias

Os que defendem o atual ritmo das coisas estão certos de que o caminho é o seguinte:
1) apresentar Geraldo Alckmin e ser propositivo, para que os que o ignoram, ainda são muitos, saibam da sua existência;
2) o simples conhecimento, até a realização do primeiro turno, lhe garantiria os pontos necessários para empurrar a disputa para o segundo turno;
3) também a candidatura de Heloísa Helena tende a crescer, aumentando a chance de a disputa só se resolver na segunda rodada;
4) uma vez no segundo turno, aí, sim, se partiria com tudo para cima do governo Lula.

Ok, entendo a estratégia, mas andei falando com os russos para ver ser eles concordavam. E os russo mandam dizer o seguinte:
1) se eles continuarem nos preservando de porradas, nós vamos consolidando os votos que já temos e, com a apresentação das nossas conquistas, nunca contestadas, vamos ganhando indecisos;
2) como nós vamos ganhando mais indecisos, ainda que Alckmin cresça um pouco, a disputa continua a se resolver no primeiro turno;
3) Heloísa Helena murcha no horário eleitoral; agora que as aparições dela não têm mais o charme e a iluminação do Jornal Nacional, resta-lhe a sofrível estética PSOL; tende a estagnar;
4) sem a campanha negativa para fazer Lula murchar bastantinho no primeiro turno, mesmo que venha a acontecer um segundo, serão necessários tão poucos votos, que a disputa será mera formalidade; será tarde demais para começar a bater.
O que eu penso? Eu quero que os russos vão para o diabo que os carregue, mas acho que estão certos.

O pau come nos bastidores

Só para que vocês saibam. O pau tá comendo nos bastidores da campanha de Geraldo Alckmin. Os pefelistas não se conformam com a maneira como está sendo conduzida a coisa. Há desde aqueles, como César Maia, que defendem, digamos, que se rememore o lamaçal ético do PT, com imagens relativas a todos os escândalos do partido, sem se descuidar de apresentar propostas, até quem queira, a exemplo de ACM, avançar na jugular de Lula e pronunciar, sem meios-termos, a palavra “ladrão” no horário eleitoral — o que provoca arrepios na área de propaganda. O líder baiano era minoria no PFL. A maioria dos caciques do partido preferia o nome de José Serra. Ele sempre esteve com Alckmin, mais uma de suas intermináveis divergências com Jorge Bornhausen, presidente da sigla. ACM está conhecendo o lado centralizados do candidato, que, anotem aí, é quem dá a última palavra na campanha. Quem conhece Alckmin de perto jura que nunca o viu mudar de idéia. Ele está convicto de que o caminho é este e de que vai ganhar. Sua aposta é alta: se perder, perde como está hoje: quase sozinho. Se ganhar, não estará politicamente obrigado a dividir com ninguém os louros.

A campanha na TV: tudo com cheiro de lisoform

Bom, vamos lá, comentando os dois candidatos que importam no horário eleitoral. A propaganda de Lula segue, como a de Alckmin, tecnicamente impecável. Huuummm... Os dois são tão limpinhos, não é? Tão éticos! Ali ninguém fuma em local proibido, joga bituca no chão ou rouba brigadeiro em festa de criança. Pum em elevador, então, nem pensar. Nunca vi tanta gente assim, como direi?, asséptica, decente, correta, asseada. Há um cheiro de lisoform no ar. Nada dos micróbios da vida real ou de disputa política.

A campanha de Lula, é verdade, embora exultante e triunfalista, ainda arruma inimigos — o governo passado, que aparece na forma de um braço musculoso, derrotado por uma porção de mãozinhas (é o povo, Mane!), fazendo força (e conseguindo) para derrubá-lo. Antes, era o Brasil da inflação, da fome, da miséria, da falta de esperança. Agora, não. A de Geraldo parece sem inimigos. Nunca ninguém foi tão olímpico estando atrás.. Não há diferença na intenção entre os dois programas (o de Lula é mais competente na realização e digo já por quê). A grande diferença está mesmo nas intenções de voto: até agora, Lula tem mais do que o dobro de Alckmin. Mas a propaganda é a mesma.

Disse que o programa de Lula é mais competente? Disse. Ora vejam: o comando da campanha do PT parece ter descoberto, antes que o do PSDB, que povo gosta é de DVD. O pobre assistido pelo governo no horário de Geraldo ainda tem aquele olhar meio agradecido de cachorro pidão: “Ah, coitada!, a Dona Maroca não tinha comida para dar para os bacuris. Agora ela já tem.” O povo de Lula aparece tirando um CD do aparelho e dizendo que já sobra um dinheirinho para fazer a festa de aniversário dos filhos. Já se transformou em consumidor.

A campanha que nasce de um fato real — aumentou o poder de compra dos mais pobres — é irrespondível. A resposta de Alckmin é dizer que vai melhorar ainda mais. Já dançou. A classe média que está pagando o pato ainda não foi descoberta pelo PSDB-PFL. E não sei se será. Mas, curiosamente, estava no programa de Lula. A Dona Maria da hora se dizia “classe média”. Ao fundo, a casa arrumadinha, com um daqueles guarda-comidas (como se chamavam no meu tempo) das Casas Bahia, comprado, provavelmente, em 800 mil prestações. Mas e daí? Como dizer ao pobre que isso vai acabar? Impossível.

Então se vai concorrer com Lula para ver quem conseguiu melhorar mais a vida de Sua Excelência o Miserável? Danou-se. Não se vai a lugar nenhum. O programa ensaiou hoje uma crítica ou outra. Muito leves. E ineficazes. A China cresceu 10%; o Brasil só perdeu para o Haiti. Foi perguntar para o Valdisnei o que ele acha desse escândalo. “Valdisnei, considerando a expansão da economia mundial, você não acha que a política monetária brasileira tem sido muito restritiva, punindo a produção, especialmente os setores que mais empregam mão-de-obra?” “Hounfgngh”. É a resposta dele engolindo um cachorro-quente e um suco por um R$ 1.

Valdsnei, no entanto, quando não está com a boca cheia de carboidrato de baixa qualidade nutritiva e alto valor calórico, tem senso de moralidade. Acha uma safadeza o que se andou fazendo por aí. E acredita firmemente que a maioria dos políticos rouba. Não tem muita clareza do que aconteceu porque não lê jornal e, nas raras vezes em que teve acesso à Internet, interessou-se por outros assuntos. O horário eleitoral era um bom momento não exatamente para “educar" Valdisnei, que isso é coisa mais complicada. Mas para despertar nele alguma indignação.

Até hoje fico me perguntando de onde vinha tanta certeza de que o horário eleitoral mudaria tudo — como se Lula também não tivesse direito ao seu. Pode mudar? Pode. Mas ou se faz a campanha negativa, uma heresia para os marqueteiros, ou parem de encher o nosso saco, os que não temos muita paciência para as peripécias do Apedeuta. Ou essa campanha de Alckmin — ou “Geraldo”, como eles dizem — fica um pouco mais amarrotada e sujinha, com cara de gente real, ou pode todo mundo ir brincar de outra coisa.

Lula por Lula, a maioria vai mudar por quê? É a ética que distingue os dois candidatos. Alckmin não rouba nem deixa que roubem. Alckmin não rouba nem diz que não sabia que roubavam. Como? Ética não rende voto? Ah, então o povo que se dane. Nunca confiei muito nesse tipinho mesmo, hehe.
Queridos, por enquanto, podem botar o burro na sombra.

Aécio, uma esfinge sem segredos

"O processo eleitoral [de 2010] tem que passar por Minas Gerais, mas isso terá que acontecer naturalmente". Essa poderia ser a síntese da sabatina a que se submeteu o governador de Minas, o por enquanto tucano Aécio Neves, na Folha de S. Paulo. Achei bem interessante o “tem que passar”, mas sendo, claro, “naturalmente”. Politização da violência em São Paulo? Aécio, bom tucano (ou mau?), critica, obviamente, os dois lados. Tanto o lado ainda alheio — o do PT — quanto e principalmente o seu próprio lado, o do PSDB. Ele vê um empate. Não estaria ele fazendo pouco esforço por Geraldo Alckmin em seu Estado? Ah, a transferência de votos tem suas limitações... E quanto a Lula? Ele, pessoalmente, gosta do presidente da República. A sucessão, é bom que se diga, já passou por Minas. O governador, praticamente reeleito, teve papel fundamental na escolha de Geraldo Alckmin como candidato tucano. É a favor de que Alckmin mude seu estilo? De jeito nenhum. Ele acha que está bom assim. E conforta o colega. Tudo vai melhorar. Reitera-se: “Pessoalmente, ele gosta de Lula, mas não de seu governo”. Talvez o governador ainda não saiba. Mas eu acho que, na hipótese da reeleição de Lula, dentro de uns dois anos, ele migra para o PMDB e, em 2010, será o candidato de Lula à Presidência da República. Se for assim, o primeiro passo do projeto terá sido dado com a indicação de Alckmin como candidato do PSDB. A receita pode desandar? Pode. Na hipótese da vitória do tucano. Problemas da estratégia: Aécio insiste demais em opor Minas a São Paulo. Nunca houve um presidente do Brasil hostil ao Estado. Se essa fama pega, as coisas ficam bem difíceis para ele. Afinal, os dois Estados não brigam desde 1932. E Minas vem sempre para unir, não é mesmo?

O sem-superego

Todos temos culpas, limites, dificuldades para lidar com as censuras alheias... É isso o que nos forma, nos faz ser quem somos. Há uma luta permanente entre os nossos desejos e ambições pessoais e esse conjunto que nos põe freios. Na tripartição clássica, estabelecida por Freud: trata-se do Ego em permanente diálogo, nem sempre amistoso, com o Superego, cujo vórtice é a autoridade paterna. E há ainda o Id, o insondável, que vai se metendo no Ego, aparecendo aqui e ali, sempre por meio de símbolos. O nosso Id é o grande produtor de metáforas e lapsos. Um curto-circuito na relação harmoniosa entre esses Três Poderes da psique ou leva o sujeito para um analista ou o faz infernizar a vida alheia.

De todos, o que mais enche o saco do próximo é, quero crer, o sujeito com um superego esburacado. São as pessoas que não têm noção de limites. Se o Superego é severo demais, temos aquelas pessoas tímidas até o limite do sofrimento, ensimesmadas, incapazes de conviver com outros, de falar em público, de se expor. Não fazem mal nenhum a não ser a si mesmas. Mas há aquelas do Superego mínimo. Quando crianças, costumam infernizar a vida da mãe e das visitas; na casa de estranhos, vão logo abrindo a cristaleira — na hipótese de haver uma cristaleira — e quebrando o que encontram pela frente, diante do sorriso complacente dos pais. Costuma haver um histórico de pai ausente ou muito autoritário, que não estabelece com a criança, especialmente o menino, uma relação de camaradagem.

Esses garotos tendem a percorrer uma trajetória inversa à do pai, para contestá-lo, mas buscando chegar ao mesmo lugar e, se possível, superá-lo. Não sei se é mesmo esse o caso do senador Aloizio Mercadante, filho do general Oliva, um militar que apoiou com entusiasmo o golpe militar de 64. O filho, como se vê, foi para a esquerda. Mas teria se tornado um democrata? Teria aprendido a ter limites?

Ontem, o filho do general inventou que o tucano José Serra discriminava nordestinos. Hoje, está garganteando por aí, indagando onde está o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que não participa da campanha. Ele o faz porque está tentando omitir uma obviedade: ele não existe como candidato autônomo. Existe a campanha de Lula, em quem ele se escora, oferecendo-se para ser seu esbirro em São Paulo caso o Apedeuta seja eleito.
Senador por São Paulo, Mercadante nunca deu um pio sobre o vergonhoso corte de verbas federais para a segurança no Estado. Pior: era líder do governo na Casa e, portanto, ele o apoiava. Por que os tucanos não dizem isso claramente eu não sei. Desisti de entendê-los faz tempo. Mais ainda: o sem-limites apoiou um projeto de Sarney que criava uma zona franca em metade do território nacional. Seria o fim de São Paulo, acreditem — e também do Brasil.

Mercadante é aquele capaz de defender a ausência de Lula em um debate e cobrar a de Serra — em nome da democracia. A exemplo do garoto malcriado, que não foi repreendido pelo pai e, portanto, não internalizou as censuras da civilização na forma de educação, ele não está preocupado com a coerência dos seus atos. O que vier está de bom tamanho. Passeando ao lado de um mensaleiro, tem o topete de se dizer defensor dos oprimidos e de acusar o adversário de preconceito.

É certo que ele o faz com a ajuda, a colaboração ativa mesmo, da banda podr