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"Não há nenhum pensamento importante que a burrice não saiba usar, ela é móvel para todos os lados e pode vestir todos os trajes da verdade. A verdade, porém, tem apenas um vestido de cada vez e só um caminho, e está sempre em desvantagem"
Robert Musil em O Homem sem Qualidades

Quinta-feira, Outubro 12, 2006

Alta traição

Caros, este blog estreou no dia 24 de junho. Se vocês forem verificar, desde aquele sábado, não deixei de escrever um único dia. São três meses e meio sem feriado, sábado ou domingo. Nunca trabalhando menos de 12 horas por dia. Muitas vezes, mais do que isso. Vou traí-los só um pouquinho. Viajo logo mais com a minha família. A minha intenção é só voltar a escrever no domingo à noite. Quem me conhece sabe que tenho uma relação talvez nem tão saudável com trabalho. Gosto muito disso aqui. Não sei descansar. Fico inquieto, meio irritado, como se o mundo estivesse conspirando contra mim ou dependente da minha intervenção. A petralhada logo vai dizer: “Tá vendo? Sempre achei esse cara meio paranóico e egocêntrico” — assim falariam os sensíveis, claro. Eles costumam ser menos delicados do que isso.

Huuummm... Ficarei grudado ao telefone, enchendo o saco dos meus amigos, querendo saber o que está acontecendo, dando pitaco em tudo, advertindo a Casa Branca e o Vaticano... Cada louco com as suas manias. As minhas só podem fazer mal a mim mesmo, o que me consola. Então, até domingo. Espero que vocês não tenham crise de abstinência. As moças não precisam sair em passeata pelas ruas, a exemplo das antigas vestais, hehe. Eu volto. O que recomendo nesse tempo? Que leiam o mundo com inteligência e propriedade. E bastante atenção à revista Veja que vem aí. Também não deixem de consultar a Veja On Line: http://www.veja.com.br/. E ouçam o Podcast do Diogo Mainardi, com Millôr Fernades. E deixo para vocês, abaixo, um texto bacaninha sobre "voto e crise nas elites no Brasil"

Diogo, se o golpe se precipitar — tente conter os nossos radicais até a minha volta —, você sabe onde me encontrar. É só me telefonar, que chego montado no meu cabo de vassoura para dar pau nessa canalha. Pretendo atingir Lula no queixo com uma Oração Subordinada Adverbial Modal, excluída na NGB...

Voto e crise das elites: por que o Brasil teme mais a inteligência do que a corrupção?

Às vezes, leitor, mesmo indo alta a madrugada, consegue-se, ainda na escuridão, um tanto de luz com que ver o futuro. Leio na edição eletrônica da Folha desta quinta, dia 12, um texto bem interessante sobre os números do Datafolha (clique aqui), e me ocorre que precisamos de intelectuais que pensem a crise das elites no Brasil. Recorram à etimologia. A palavra "elite" designa “o que há de melhor”, a excelência. Escarafunchando o latim, encontra-se na sua raiz as palavras “eleger” e “eleito”.

Por que o texto sobre a pesquisa do Datafolha me levou a tal questão? Ali se lê: “No geral, o tucano [Geraldo Alckmin] consegue uma fatia maior de eleitores que o vê como ‘o mais inteligente’ -51%, contra 34% que atribuem essa característica a Lula- e ‘o mais moderno e inovador’ -45%, contra 39% para Lula. Já entre os que assistiram ao debate, aumenta a proporção dos que consideram Alckmin o mais inteligente -chegando a 54%, enquanto Lula oscila um ponto, para 35%.”

Mas também somos apresentados aos seguintes dados: “Segundo a pesquisa Datafolha realizada na terça-feira, uma fatia maior de eleitores considera Alckmin o candidato ‘mais autoritário’ (44%, contra 36% para Lula) e ‘que mais defenderá os ricos, se eleito’ (59%, contra 17% de Lula). Quando considerados apenas os que assistiram ao debate, no entanto, aumenta a proporção dos que consideram o tucano o mais autoritário (50%, contra os mesmos 36% de Lula). Ainda neste grupo, também aumenta a fatia dos que consideram o candidato do PSDB ‘o que mais defenderá os ricos’ (62%, contra 16% para Lula). Um efeito semelhante ocorre com Lula na percepção de corrupção. No total de entrevistados, 35% consideram o petista ‘o mais corrupto’, contra 20% que consideram Alckmin como tal. Entre os que viram o debate, 40% acham Lula ‘o mais corrupto’, e 22%, Alckmin.”

Estamos diante de um quadro desolador. Como não considerar relevante que o eleitor veja no candidato “mais inteligente” e “menos corrupto” também “o que mais defende os ricos” e “o mais autoritário”? Nada nos permite concluir que haja uma relação de causa e efeito aí. Mas não podemos ignorar, quando menos, a atribuição de uma correlação. A inteligência e, vá lá, a ética mais atilada são postas, vejam vocês, no mesmo cadinho em que são lançados o autoritarismo e a insensibilidade social. Lula, em contraste, mesmo visto como menos inteligente e mais corrupto, seria, no entanto, mais favorável aos pobres e... mais democrático!

Pode-se ou não concordar que Alckmin seja um bom representante da “elite” no sentido do “melhor que se pode ter de um grupo”. Mas, dadas as opções, é assim que o vê o eleitorado. E, no entanto, hoje, ele perderia a disputa. É bom lembrar que só se tornou um candidato competitivo porque o dossiê despertou uma onda de rejeição aos métodos do PT, um tiro no pé que o partido deu à boca da urna. Não fosse isso, o pleito teria sido decidido no primeiro turno. Sim, há algo de profundamente errado com as nossas “elites”, com os “melhores” de nós. Não se trata, evidentemente, de empregar ao termo naquele sentido bronco, burro, habitualmente manipulado pelo PT. Ao petismo interessa que “elite” seja o antônimo de povo — distopia a que finalmente chegamos, dada a clivagem eleitoral que se vê no país e que Lula tão habilmente explora.

Fiquei aqui, nesta madrugada quente, a pensar: “Mas por que diabos o eleitor consegue ver na mesma personagem mais inteligência e mais autoritarismo; o menos corrupto, mas também o mais favorável aos ricos?” Se Lula fosse o líder de uma revolução social — revolução mesmo, daquelas em que se mata e se morre —, tal questão seria irrelevante. Qualquer hierarquia de valores é relativa numa poça de sangue. Mas ele não é. Trata-se apenas do representante de uma nova classe social — formada pelo que costumo chamar de “burgueses do capital alheio” —, que manipula habilmente os signos do chamado “poder popular”. Lula não chega a ser um teórico da economia da pobreza, e sim do “pobrismo”. Ele não promove, à diferença do que se diz, uma redistribuição de renda: sob o seu reinado, a classe média ficou mais pobre para que os pobres ficassem mais perto da classe média.

Mas uma coisa ele sabe fazer com rara maestria: satanizar e desmoralizar os valores das “elites” — não das elites econômicas, como supõe alguns tontos da USP. Mas justamente as “elites” entendidas como “os melhores”. Sob o império do lulismo, o mérito desaparece, e qualquer distinção se torna fruto de uma trapaça. Nesse sentido, Lula está MENOS perto do comunismo, de que se quer um herdeiro contemporâneo e “aggiornado”, do que do fascismo. Explico-me: os comunistas ainda aspiravam a uma certa visão aristocrática, distintiva, da classe operária. Lula açula a república dos açougueiros morais. O instrumento de sua luta de classes é o cutelo que decepa reputações. Lula inspira o ódio à inteligência e a qualquer forma de tradição.

Por culpa dele? Sim, certamente: ele é o agente dessa fantasmagoria, ancorado num partido que, sem prejuízo de sua retórica universalista, é pobremente fascitóide e corporativista. Mas também por culpa nossa, das “elites”. Não temos sabido — especialmente os partidos políticos (ou, vá lá, “lideranças políticas”) que não comungam dessa escatologia autoritária — fazer a devida guerra de valores. Ao contrário. A cada dia, cedemos mais à razão dos nossos “inimigos”. Quais “inimigos”? De classe? Ora, é claro que não. Olavo Setúbal, do Itaú, por exemplo, já afirmou que, para ele, serve qualquer um dos dois “conservadores” — Lula ou Alckmin. Falo dos inimigos do mérito.

Reparem a facilidade com que, hoje em dia, lideranças do PSDB e mesmo do PFL pretendem disputar com o PT valores que se dizem de centro-esquerda. Vejam a facilidade com que o “discurso do social”, sem que se especifique exatamente que diabo isso quer dizer, se torna pauta obrigatória dos partidos — ainda que esta “agenda” não respeite a lei. Os petistas que espinafram Alckmin ignoram que o governo de São Paulo atuou, por exemplo, em parceria com o MST no Pontal do Paranapanema. Quando um tucano quer demonstrar que os petistas não são monopolistas do bem, costumam se dizer, vejam só, até “mais esquerdistas do que Lula”. Que diabo isso quer dizer? Desde quando ser “de esquerda” credencia alguém para a democracia se a história da esquerda é justamente a da superação dos valores democráticos como mera etapa da “verdadeira liberdade”? As elites brasileiras perderam a vontade de ser um exemplo. Querem disputar, no terreiro do populismo, um lugar no festim promovido por petistas e assemelhados.

Ocorre que esse “lugar” da permanente reivindicação e do discurso do igualitarismo está congestionado. Qualquer um que tente ocupá-lo sem o selo de qualidade fornecido pelo próprio petismo será logo escorraçado, visto como um estranho, como alguém de fora, sem legitimidade para participar da disputa. As “elites do mérito”, em vez de se ocupar, então, de seus valores, voltando-se para alguns elementos que estão na fundação da convivência social civilizada, tornam-se meras caudatárias dessa demagogia e desse pobrismo. E evitam o debate e o confronto como o diabo foge da cruz.

Não é que o povo, como se vê, não saiba distinguir a inteligência da burrice, a corrupção da honestidade. Ele sabe. Mas, por desídia das elites, considera que a inteligência e a honestidade podem não ser seus melhores aliados. Nessa hora, é claro que estamos, como país, dando uma piscadela para o caos. Voltarei a esse tema outras vezes. Por que diabos este país tem mais medo da inteligência do que da corrupção?

Alckmin lança Serra para a Presidência em 2010; governador eleito de SP desconversa

Um dia depois de afirmar em Minas que Aécio Neves é pré-candidato à Presidência em 2010, Geraldo Alckmin, ao lado de José Serra, afirmou que o governador eleito de São Paulo está na mesma condição: “Lá na frente vamos ter o PSDB com outro bom candidato. Temos grandes nomes do partido, o governador eleito José Serra e o reeleito Aécio Neves. Então lanço hoje o José Serra.” Serra não quis falar sobre o assunto: “Tenho duas preocupações no momento, que são as essenciais: me preparar para fazer um bom governo em São Paulo e ajudar a eleger Alckmin. 2010 é um longuíssimo prazo'. Por Silvia Amorim, no Estadão: “De olho na popularidade do colega José Serra (PSDB), governador eleito de São Paulo, para ampliar sua votação na capital, o presidenciável tucano, Geraldo Alckmin, fez campanha ontem ao lado dele. Os tucanos escolheram para pedir votos um reduto petista, o bairro de Cidade Tiradentes, na zona leste. A região foi uma das poucas em que Alckmin perdeu o primeiro turno para o presidente Lula na cidade - teve 30% dos votos válidos e Lula, 58%.” Clique aqui para ler mais

Ética é questão substantiva, não lateral, diz Alckmin

Por Ana Paula Scinocca, no Estadão: “O candidato do PSDB à Presidência, Geraldo Alckmin, avisou ontem que vai manter até o fim da campanha o 'estilo Mike Tyson' apresentado no debate com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), no domingo. 'O estilo vai ser o mesmo. É falar a verdade. Não gosto de gente que não fala a verdade, que distorce a verdade e que sacrifica os amigos para salvar a pele', disse. Sobre as críticas de eleitores de que tanto ele quanto Lula deixaram de apresentar propostas no debate inaugural do segundo turno - transformando o programa em uma troca de acusações -, o tucano argumentou: 'A questão ética não é lateral. É substantiva, é programática.' Em entrevista à Rádio Bandeirantes, o ex-governador paulista voltou a chamar seu oponente de 'mentiroso'. Reafirmou que o PT já teve sua chance de governar o País e que Lula falta com a verdade para ganhar voto. 'O próprio presidente candidato fica colocando mentiras sem parar ao dizer que vou privatizar (a Caixa Econômica Federal, o Banco do Brasil, a Petrobrás e os Correios). Meu programa de governo tem 216 páginas e nenhuma citação, é mentira para ganhar voto', afirmou Alckmin, relembrando a 'boataria' que teria sido espalhada pelo PT para prejudicar sua campanha.” Clique aqui para ler mais

FHC: apreço pela democracia distingue PSDB de PT

Por Jamil Chade, no Estadão: “O que separa o PT do PSDB não é tanto o projeto econômico nem a política social, mas a democracia e a concepção de Estado. A avaliação foi feita pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em entrevista publicada ontem em um dos principais jornais suíços, Le Temps. 'O PT não tem uma visão democrática', disse o ex- presidente, que não poupou críticas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva por causa da 'promiscuidade do PT e da estagnação da economia'.Para Fernando Henrique, 'o PT ainda pensa que precisa ocupar a máquina estatal para reformar a sociedade'. 'É exatamente por causa dessa promiscuidade que nasceram os escândalos em que está implicado (o PT)', afirmou.” Clique aqui para ler mais

Finalmente leio em jornal algo sensato sobre os números do Datafolha...

Ah, finalmente consigo ler em jornal alguma coisa sensata sobre os números do Datafolha. No Estadão desta quinta: “A analista Fátima Pacheco Jordão. da FPJ, lembra que cerca de 60% ou mais do eleitorado do presidente 'foi preservado', pois não viu o debate. A chance de mudança só foi posta para os 40% restantes, cuja maioria é do tucano e que o considerou melhor no confronto da TV. 'Assim, não se pode dizer que o debate atrapalhou o candidato do PSDB. Talvez tenha ajudado e impedido que a vantagem de Lula fosse maior no Datafolha de ontem', avisa Fátima. Ela adverte para duas situações. Primeiro, há um fator de identificação entre eleitor e candidato. Muitos eleitores acharam que no debate Alckmin estava mudado. 'É preciso tempo para assimilar e aprovar, ou não, essa mudança'. Segundo, o eleitor está momentaneamente sem a referência do horário eleitoral. E nesse vazio 'atuam os apoios do candidato próximos ao eleitor. Nesse item, Lula está mais bem servido e se beneficiou.” Clique aqui para ler mais

"Prefiro o superávit nominal"

O Estadão desta quinta traz um bom material sobre as saídas para a economia no próximo governo. Abaixo, uma entrevista com Luiz Carlos Mendonça de Barros. Por Leandro Modé.
(...)
Por que o Brasil cresce pouco?
Porque somos uma das economias menos competitivas do mundo. Isso ocorre por três razões. A primeira é que temos uma carga tributária muito elevada, que decorre dos nossos problemas fiscais. A segunda razão é a péssima qualidade da nossa infra-estrutura econômica: estradas, portos etc. Em terceiro lugar, temos um péssimo ambiente de negócios.
O que fazer para melhorar essas três questões?
A carga tributária resulta do nível de gasto do governo. Para isso, é preciso haver maior racionalidade. Agora, o que fazer para reduzir gasto do governo é uma coisa que você precisa estar lá para saber o que vai fazer. Precisa saber as condições políticas que vai ter. O que tem de ter é isso como norte. Na infra-estrutura, precisa abrir no orçamento um espaço para o governo voltar a investir 2,5% do PIB. Ou então, por meio de parcerias público-privadas (PPPs) e outros instrumentos, chamar a iniciativa privada. A terceira questão remete à agenda perdida, que deve estar na gaveta de alguém no Ministério da Fazenda. São as reformas microeconômicas, que o governo Lula só fez uma, a Lei de Falências um pouco mais moderna.
Concorda com o tripé câmbio flutuante, metas de inflação e superávit primário?
Sou a favor do câmbio flutuante sujo, como hoje, das metas de inflação, com mudanças pontuais, mas o superávit primário foi um engodo como medida de política fiscal. Prefiro superávit nominal.
E controle de capitais?
Sou contra porque não funciona. O mundo de hoje é muito permeável.
O real está sobrevalorizado?
Sim, está relacionado ao superávit comercial. A solução é crescer mais para usar os dólares para importar máquinas e componentes para tornar as empresas mais eficientes. Se não resolver esse problema, a indústria vai desaparecer.
Seu diagnóstico, em alguns pontos, é semelhante ao de Nakano.
Estou sempre no meio. Você nunca vai achar outro igual a mim no mundo. Como não tenho coisa preconcebida na cabeça, quero entender o que está acontecendo.
O senhor tem contribuído com o programa do candidato Alckmin?
Ajudei no começo, mas saí.
Por quê?
Havia muita divergência nas opiniões levadas ao candidato e eu não gosto. Meu irmão (José Roberto) tem ajudado.
O juro no Brasil é alto demais?
É, por um erro do BC. Eles não entenderam que, com a sobra de dólar, a dinâmica de inflação é outra, muito baixa.

PT faz gritaria contra proposta de Nakano, mas quer a mesma coisa

Um jornal consegue começar a fugir no nhenhenhém quando faz o que o Estadão fez na edição desta quinta-feira. Em vez de se limitar a reproduzir declarações, tentou entender e buscou interpretar o que está em debate. Leia com atenção o que vai a seguir. Por Evandro Fadel: “O ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, atacou ontem a proposta do economista Yoshiaki Nakano de reduzir os gastos do governo no equivalente a 3 pontos percentuais do PIB, embora ele mesmo defendesse, antes do período eleitoral, a redução das despesas governamentais. Bernardo acreditava ser possível chegar ao déficit nominal zero - quando as receitas empatam com as despesas, incluídos os juros. E hoje o déficit nominal do governo federal supera os 3% do PIB. Nakano é o principal assessor econômico do candidato Geraldo Alckmin, do PSDB, que tem se queixado de 'terrorismo eleitoral'. Para Alckmin, o presidente Lula e seus ministros têm se especializado em espalhar boatos. Nakano é cotado para o Ministério da Fazenda num eventual governo Alckmin.
Bernardo afirmou ontem, em Curitiba, que o corte proposto por Nakano obrigaria o governo a acabar com o Ministério da Saúde, o da Educação e, provavelmente, com o do Desenvolvimento Social. 'Acabar e não fazer mais nada nessas áreas', acentuou. 'Acho difícil que ele tenha falado nesses termos e, se falou, não leu o Orçamento.' Bernardo esteve em Curitiba a convite de empresários para discutir reivindicações do setor. Mas comunicado à imprensa sobre a visita foi distribuído pelo comitê de campanha pela reeleição do presidente Lula.
O presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Demian Fiocca, foi na mesma linha. 'Pelo que eu entendi, o próprio Nakano e outros dizem que querem cortar (gastos) para aumentar investimentos, então o que sobra são (os cortes) de gastos sociais', disse.
Ocorre que, por caminhos diferentes, a equipe econômica de Lula tem formulação próxima da de Nakano. Antes do período eleitoral, Bernardo e o ministro Guido Mantega vinham dizendo que seu projeto para o segundo mandato era cortar os gastos do governo gradativamente, em degraus de 0,1 ponto porcentual do PIB, e manter a economia para pagamento de juros - o superávit primário, hoje com meta de 4,25% do PIB. Assim, o governo chegaria ao ponto em que sua arrecadação seria suficiente para cobrir a totalidade de suas despesas - o chamado déficit nominal zero.
Detalhe: este ano, o déficit nominal do governo central alcançou 3,18% do PIB, de janeiro a agosto. Isso quer dizer que para chegar ao ponto desejado pelos ministros, será necessário cortar gastos em valor próximo dos 3% do PIB de Nakano. Antes, Bernardo previa atingir esse patamar até 2009 ou 2010.
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Freud nega depósito de Nahas em sua conta

Por Paulo Baraldi no Estadão desta quinta: “Freud Godoy, ex-assessor da Presidência, divulgou nota ontem negando transação de R$ 396 mil feita em seu nome com depósito do megainvestidor Naji Nahas. 'São irresponsáveis e inverídicas as afirmações feitas pelo deputado federal Fernando Gabeira (PV-RJ).' O advogado de Freud, Augusto Arruda Botelho, afirmou que tomará as medidas judiciais cabíveis, pedindo esclarecimentos do deputado junto ao Supremo Tribunal Federal (STF), e requisitará abertura de investigação 'imediata e urgente' pela CPI dos Sanguessugas para detectar se houve quebra de sigilo bancário de Freud sem autorização judicial. 'Pelo que se denota da matéria (veiculada ontem no Estado), houve quebra ilegal do sigilo bancário', diz o documento assinado por Freud e Botelho e enviado ao presidente da comissão, Antonio Carlos Biscaia (PT-RJ).Para ler mais, clique aqui. Só não entendi uma coisa. Se cliente e advogado negam ter havido depósito, de onde deriva a suspeita de ter havido a quebra ilegal do sigilo? Não tendo havido a movimentação, o sigilo quebrado só provaria que não, certo?

Advogado de Freud diz que saque de R$ 150 mil em dinheiro "não é tão incomum assim". Não???

Na Folha desta quinta: "O advogado Augusto Arruda Botelho Júnior afirmou ontem que Freud Godoy, ex-assessor especial do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, realmente sacou R$ 150 mil em dinheiro em março de 2004. O dinheiro, disse, foi usado para pagar equipamentos da empresa de segurança da mulher de Freud, Simone, a Caso Sistemas de Segurança.Botelho Júnior afirmou desconhecer de que banco o valor foi sacado nem o motivo de a quantia ter sido retirada em dinheiro. "Eu não sei, sei que ele precisou do dinheiro. Isso [saques de valores altos na boca do caixa] não é tão incomum assim", afirmou.Freud foi citado na investigação da Polícia Federal como o homem que determinou o pagamento de R$ 1,7 milhão ao emissário de Luiz Antônio Vedoin, chefe da máfia dos sanguessugas e que ofereceu um dossiê contra tucanos.Freud é amigo de Lula e foi segurança do petista em campanhas eleitorais."

Defesa de Gedimar, que inocenta Freud, é inverossímil, diz superintendente da PF

Por Lilian Christofoletti na Folha desta quinta: “O superintendente da Polícia Federal de São Paulo, Geraldo Araújo, disse ontem ser inverossímil a defesa apresentada pelo ex-policial Gedimar Passos, que afirmou ter sido induzido pela própria PF a citar Freud Godoy, ex-assessor especial do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), como envolvido na compra de um dossiê contra tucanos. ‘Gedimar [Passos], que se aposentou na Polícia Federal e é advogado, certamente saberia ter se defendido numa situação de suposta pressão. Além disso, ele teve outras oportunidades para retirar a acusação contra Godoy, mas não o fez’, disse o superintendente. Foi numa manifestação escrita enviada ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral), protocolada no dia 3, que o ex-policial voltou atrás e inocentou Godoy de ter participado da tentativa de compra do dossiê.Clique aqui para ler mais

PF vai ouvir Mercadante, que era chefe do homem da mala

Por Hudson Corrêa e Andrea Michael na Folha desta quinta: "A Polícia Federal quer ouvir o senador Aloizio Mercadante (PT-SP) sobre a negociação de emissários petistas para a compra do dossiê contra tucanos montado pelos empresários Darci e Luiz Antonio Vedoin. Conforme depoimentos já tomados pela PF, os papéis seriam entregues a Hamilton Lacerda, ex-coordenador-geral da campanha de Mercadante para o governo de São Paulo, na qual tinha como adversário o hoje governador eleito, José Serra. Ontem à noite, Mercadante divulgou nota em que diz que "desde o início das denúncias tem manifestado seu interesse em esclarecer este episódio do dossiê e, por isto, esteve, e está, sempre à disposição para colaborar com as investigações’. Na nota, Mercadante "reitera que não teve nenhuma participação neste lamentável episódio e que não foi informado sobre sua execução. E jamais se associaria a esta prática que sempre condenou em seus 30 anos de vida pública’. Também estão agendados para terça, em São Paulo, os depoimentos do empresário de Piracicaba Abel Pereira e do deputado Ricardo Berzoini (PT-SP).Clique aqui para ler mais

Vedoin conta à PF pressão de petistas para acusar tucanos

Por Hudson Corrêa e Andrea Michael na Folha desta quinta: “O empresário Luiz Antonio Vedoin, 31, chefe da máfia dos sanguessugas, afirmou ontem em depoimento à Justiça Federal que os então petistas Oswaldo Bargas e Expedito Veloso pediram a ele para mencionar na entrevista à revista ‘IstoÉ’, no dia 14 de setembro, peixes graúdos como José Serra e Geraldo Alckmin, do PSDB. A entrevista relatou o suposto envolvimento do empresário Abel Pereira, amigo de Barjas Negri -ex-secretário e sucessor de Serra no Ministério da Saúde-, com a máfia. Apesar de ter dito que não atendeu o pedido para incluir os nomes de Alckmin e Serra na entrevista, Vedoin relata na reportagem que era mais fácil a liberação de verbas para compra de ambulâncias na época em que Serra era o ministro.A Polícia Federal investiga se a entrevista dada por Vedoin fazia parte do pacote do dossiê contra tucanos, negociado também no dia 14.” Clique aqui para ler mais

Partido asqueroso

O deputado Ricardo Berozini (PT-SP), presidente licenciado do PT, foi convocado pela Polícia Federal a depor nesta sexta, mas só aceitou fazê-lo na terça. Ele tem foro especial e pode interferir na data. A PF suspeita que ele seja um dos mandantes do dossiegate. Ele nega. Não só nega como está indignado e promete processar os jornais. Os estudantes franceses daquela porra-louquice de Maio de 1968 tinham como um dos lemas “A imaginação no poder”. Não chegamos a tanto aqui. Mas o surrealismo, definitivamente, está no trono. A revista Época revelou ter sido procurada por petistas para publicar o dossiê e afirmou que lhe fora dito que Berzoini sabia da sua existência. Ele não teve como negar, mas preferiu dizer que tinha informações, digamos, ligeiras. Depois, Lula sugeriu que o então presidente do PT era o responsável pela tramóia, ao que este respondeu: “Se o presidente disse...” Agora, claro, ele nega peremptoriamente e ameaça os veículos de imprensa. Impressionante: eles todos são amigos e muito íntimos do poder. Exceção feita a Gedimar Passos e Valdebram Padilha, são pessoas ligadas à cúpula do PT, o que inclui Lula. E ele, claro, nada lhes pergunta. E, por enquanto, mais da metade do Brasil acha que é assim que se faz. Vai ver, como afirma Marco Aurélio Garcia, trata-se de gente com receio do “risco Alckmin”. O PT é um partido asqueroso.

Quarta-feira, Outubro 11, 2006

Freud e o Id

O gracejo pode ser um tanto manjado, mas vocês verão como os fatos acabarão convergindo pra ele. O “inocentado” Freud Godoy constitui, assim, uma espécie de “Id” do “ego” Luiz Inácio da Silva, que, sem “superego”, tornou-se Luiz Inácio Lula da Silva. Na tripartição do aparelho psíquico feita por Freud, o vienense, no “id” estão alguns registros de que nem mesmo nós nos damos conta. É uma espécie de lixão da memória, que vai acumulando boa parte daquilo que não queremos saber. O sujeito vai parar no divã quando esse estoque de contencioso, com memórias acumuladas desde a infância, insiste em romper uma espécie de fronteira, assaltando-o enquanto, sei lá, toma um Chicabom ou coça o cotovelo. Vamos ver até quando o “id” de Lula se mantém ali, intacto.

Ibope

A informação de que eu dispunha dava conta de que o campo do Ibope seria encerrado hoje. Fosse assim, não teria como, já à tarde, saber-se da diferença de 13 pontos em favor de Lula. Digamos que a minha informação estivesse errada e que, de fato, o levantamento foi concluído ontem. Em tempos de opiniões, vê-se, um tanto voláteis, caberá ao instituto explicar por que terá ficado um dia e meio sentado sobre o resultado. Diferença de 13? Pode ser. Estaria tecnicamente empatado com o Datafolha. Nestes dias, 13 é, antes de tudo, uma aposta...

Tom propositivo, é? Então tá...

Eu não vou ficar aqui relembrando números de pesquisas eleitorais porque este é um levantamento que vocês podem fazer sozinhos. A Internet — Google, Datafolha, Ibope — está aí para ajudá-los. Bem, falo isso a propósito de quê? Acabo de ler no Estado on Line que a campanha de Alckmin não TV vai fazer justamente o que eu mais temia: adotar o tal tom propositivo, maneirando no confronto. Tudo isso porque as pesquisas qualitativas, sempre elas, indicaram que bater em Lula pode soar arrogante. A ser assim mesmo, a campanha estará assinando um recibo de que caiu na conversa do PT. Fica até parecendo que, antes de começar a dar porrada, estava na frente, vencendo de goleada.

NÃO! VAI EM CAIXA ALTA MESMO: É MENTIRA! Alckmin perdia a disputa no primeiro turno, diabos! O máximo a que chegou com o estilo soft foi 25% das intenções de voto — talvez 27%, talvez 23%. Mudou de patamar quando começou a confrontar Lula com sua obra. Passou a ser um candidato viável, com expectativa de segundo turno, quando veio a público o dossiê fajuto que tentou incriminar José Serra.

E quem é que ficava estimulando o tom memorialista-obreirista da campanha? As tais pesquisas qualitativas. O que aconteceu, isto sim, é que o PSDB, incrivelmente, deixou o PT tomar conta da agenda. No domingo, Lula era massacrado no debate. Na segunda, os tucanos colhiam os frutos; na terça, já estavam na defensiva, negando o excesso de agressividade de Alckmin ou que fossem privatizar a Petrobras ou a casa-da-mãe-Joana. Vale dizer: eram apenas reativos, nada mais. Quando cumpria que continuassem ofensivos. O problema está aí, não em bater ou não bater.

Até porque reitero: não bater, como não se vinha batendo, era caminhar para a derrota certa. Recuperem as pesquisas e vejam como era a ascensão de Alckmin, de dois em dois pontos. Fôssemos considerar a variável tempo, talvez ele ultrapassasse Lula ali pelo dia 24 de dezembro... Algo aconteceu quando a campanha mudou. E o evento — o segundo turno — se deu quando os petistas tiveram a brilhante idéia de destruir José Serra.

Isso é história. Pesquisem aí e preencham o roteiro com números para vocês verem se confere ou não. O PT está fazendo terrorismo? Não basta gritar. É preciso contra-atacar. Uma boa idéia é estudar como Jandira Feghali (PC do B) perdeu a vaga do Senado no Rio para Francisco Dornelles (PP-RJ). Eu sei que ele também apóia Lula. Estou apenas dando exemplo de uma disputa em que se soube trabalhar um fenômeno chamado "opinião pública".

Terrorismo chega ao BNDES

Façam uma pesquisa e tentem saber quando foi que o primeiro escalão do primeiro ou do segundo mandatos de FHC se meteu em disputa eleitoral. De jeito nenhum! As políticas públicas e as críticas da oposição eram eventualmente combatidas quando ministros eram convocados para falar em comissões do Congresso. E só. Agora, assistimos ao esbulho do Estado de Direito de forma descarada. Ok. Estão seguindo o exemplo do chefe. Afinal, é o próprio Lula quem espalha o boato de que Alckmin vai privatizar a Petrobras, o BB e os Correios se for eleito. Guido Mantega (Fazenda) entrou na onda. Até o comunista do Brasil e presidente da Câmara, Aldo Rebelo (SP), entrou na dança.

Hoje, quem falou foi Demian Fiocca, presidente do BNDES. Comentando uma palestra de Yoshiaki Nakano, um dos assessores de Alckmin, aproveitou para dizer que ele não faria os cortes de custeio que prometeu sem capar verbas sociais. É o terrorismo funcionando. Lula é também candidato. Dispõe de assessores para tanto. Tem um coordenador de campanha. Quando o sr. Fiocca debate o programa da oposição — de fato, nem programa é; tratou-se de uma palestra —, faz política partidária de uma forma descarada. E ilegal. Que se licencie ao menos do cargo para correr o país defendendo as suas teses.

Afinal, por que Lula está na frente?

Muito bem. Mas, então, o que explica o desempenho de Lula apesar de toda a sem-vergonhice que cerca o seu governo. Bem, vamos ter aqui de falar de aspectos de fundo e de outros de superfície.

Quanto às questões de fundo, basta olhar, de novo, os números do Datafolha, e vocês vão reparar que a grande força eleitoral do Apedeuta está entre os que ganham até dois mínimos. Passou a levar uma ligeira vantagem, mas bem ligeira, entre os que ganham de 2 a 5 — estamos falando ainda de gente pobre. Não por acaso, o Nordeste dá ao petista a liderança disparada. Porque é justamente lá que se concentra o maior número dos que têm renda de até 700.

Mais ainda: já se sabe que a esmagadora maioria dos que estão fora da PEA — População Economicamente Ativa — e se encontram nessa faixa de rendimento aderiram a Lula. Estamos falando dos votos cativos. Lula deu dimensão político-eleitoral ao programa de bolsas que começou no governo FHC. Eram atendidas quase 5,5 milhões de famílias. Agora, são 11,1 milhões. As ações do governo anterior que eram pudicamente compensatórias tornaram-se desavergonhadamente eleitoreiras. Mais: é fato que cresceu o poder de compra dos baixos salários, ainda que tal efeito esteja correlacionado com um modelo que resulta em baixo crescimento, o que serve para reproduzir o ciclo do assistencialismo. E sic transit...

Muito bem. Aí está a base material da fortaleza eleitoral de Lula, que o leva, sim, bem perto da vitória. O que pode estar determinando uma curva ascendente nestes últimos dias? Uma palavra define tudo; TERRORRISMO. O PT e aliados optaram pelo terrorismo eleitoral e não têm receio de admitir a prática. Quem consegue ler jornal, entende o noticiário de TV e sabe o que está em disputa já sabe que essa conversa de extinguir Bolsa Família ou vender a Petrobras — os brasileiros devem ser contrários sem nem saber do que se trata — é mentirosa. Mas imaginem o que o petismo não está fazendo nos grotões do país. Mesmo nos setores mais informados, a legenda resolveu trabalhar com o medo. A fórmula é assim: o PSDB vendeu estatais no passado; por que não venderia agora? E o faz como se a privatização tivesse sido coisa ruim para o país.

Resposta política
Nessas horas, a resposta tem de ser política, matéria em que o PSDB costuma claudicar por excesso de vocação racionalista. Lembro-me de um humorista americano, ligado aos democratas, a fazer piada nos EUA nas eleições passadas. Segundo a sua ironia, parecia que o país estava decidindo se os gays poderiam casar ou não ou se o aborto deveria ou não se generalizar como prática corriqueira.

É verdade. A situação era um tanto dramática para os republicanos. A guerra do Iraque era um fiasco, os superávits gêmeos da era Clinton haviam se convertido em déficits gêmeos, a guerra contra o terror enfrentava denúncias de torturas, de transgressões aos direitos humanos etc. Algum republicano teve a idéia: “É a política, estúpido”. E chamou os temas de comportamento para a primeira linha do debate. John Kerry quebrou a cara. Começou a perder a eleição num debate em que teve de responder uma questão, feita por uma americana qualquer selecionada para estar na platéia, sobre aborto. A pergunta era simples: “O sr. é contra ou a favor?” O primeiro a responder foi o democrata: “Veja bem, como católico, sou contra, mas, como político etc, etc, etc, etc.” Digamos que esse “dois em um” confundiu os americanos. A bola foi passada para Bush: “Sou contra”. E mais não disse.

O petismo é um entulho de ambigüidades sobre os mais variados temas. E um deles, vejam só, diz respeito justamente ao aborto. Neste exato momento, está em debate a ampliação do direito ao aborto legal. Uma cartilha do partido trata do assunto. E defende essa ampliação. Mas isso iria para o debate? Ah, não iria de jeito nenhum. Porque, sabem como é?, o tema é considerado off topic, um pouco grosseiro para ser tratado numa eleição presidencial. Do mesmo modo, o tema da maioridade penal para um assassino de 16 anos, contrariando a percepção da população, a sua experiência nas ruas, também se confunde com jogar pedra na cruz.

Na prática, contestar o petismo se torna difícil porque quase todas as correntes políticas acabam se tornando reféns de sua agenda. Não por qualquer adesão ideológica que obedeça necessariamente a um centro irradiador de valores — não adianta tentar encontrar esse centro porque ele não existe. Trata-se mesmo de falta de debate e de clareza, de admitir que há um conjunto de valores que se diz “conservador” e que, à diferença de afrontar os “valores da humanidade”, honra-os. Mas aí é preciso ter coragem.

O que acontece, em suma, no país é que se faz um debate político sempre envergonhado. E, no fundo, todo mundo parece querer a mesma coisa, variando apenas a competência com que se aplicaria um mesmo e universal conjunto de medidas. E isso vale também — ou muito especialmente — para a economia.

Caiu porque bateu, diz Franklin. Errado.

Franklin Martins disse na Band que Alckmin caiu porque exagerou nas críticas e perdeu eleitores. Se Franklin está mentindo, eu não sei. Mas verdade não é. Ele não tem base empírica para dizer isso:
a) não há pesquisa avaliando esse fenômeno — o Datafolha registra empate na apreciação dos candidatos, com vantagem para Alckmin;
b) a audiência do debate da Band foi, na média, de 14 pontos, com um pico de 20, mas pouco tempo. Não é assim tanta gente a ponto de mudar a curva eleitoral;
c) debates valem mais pela repercussão; a imediata, no meios de comunicação, foi positiva para Alckmin. Só depois é que setores da imprensa abraçaram a tese de Franklin, insistindo, no fundo, na tese de que não fica bem um doutor bater num operário;
d) se a equipe de marketing comprar essa versão, podem botar o burro na sombra.

Caixa de Pandora e contragolpe

Abriram a Caixa de Pandora, e todos os males do mundo escaparam. Eles estão todos à solta hoje. Há, na expressão de um amigo, os “canalhas ativos”: os que defendem o roubo, o ludíbrio (pô, acho que nunca usei “ludíbrio” antes num texto meu), a canalhice, a vigarice. E há os “canalhas passivos”: os preguiçosos, indolentes, que se refestelam no cinismo e no sarcasmo, como se a eventual eleição de Lula fosse um prejuízo, sei lá, para mim. Querem saber? O desastre é do Brasil se isso vier a acontecer. A crise está contratada. Quanto ao cretinismo de afirmar que um eventual processo de natureza eleitoral, que venha a tornar ilegal o mandato de Lula, é golpe, aí será preciso rever toda a hermenêutica do direito. No dia em que a aplicação da lei for considerada um golpe, então será sinal de que o golpe já terá sido dado. Depor Lula, nesse caso, será um imperativo ético dos contragolpistas.

Comentários

Não há nada de errado com os comentários. Acontece que estou pendurado aqui numa apuração, sem tempo para postar os comentários. Já vai...

Começou a cascata de especialistas...

Pronto. Já começou a cascata dos “especialistas” para tentar entender por que Alckmin caiu na pesquisa Datafolha e como isso seria resultado da rejeição da classe média às críticas contundentes que fez ao presidente Lula etc e tal... As análises não valem um tostão furado. São puro chute. Sustentam-se, na verdade, na suposição de que bater em Lula é pecado de classe, já que ele seria social e politicamente inimputável porque foi pobre um dia. Já faz tanto tempo... A questão é bem outra. O bom-mocismo das oposições, em momentos cruciais da vida nacional, é que fez com que ele atingisse um índice de ótimo e bom de 49%. Um terço dos brasileiros considera o governo regular. Vistos os números por esse ângulo, vencer Lula é quase um milagre, é bom que se diga. Embora o desempenho de tucano no debate tenha sido muito superior, as pesquisas registraram um empate, com ligeira vantagem para o candidato do PSDB. É até surpreendente. Essas avaliações costumam reproduzir a curva das preferências eleitorais. Em 2002, Serra esmagou Lula em todos os debates. As pesquisas diziam que Lula se saíra melhor. Era a onda vermelha, invencível então. Se Cristo descesse à terra para concorrer com o petista naquele ano e operasse milagres aos olhos de todos, seria chamado de impostor.

A oscilação — e foi isso o que houve — na pesquisa Datafolha está dentro de uma curva absolutamente explicável. Coincide com a pesquisa feita quatro dias antes pelo Vox Populi para um banco. Coincide também com o esfriamento do noticiário sobre o escândalo do dossiê. Se os especialistas quiserem um bom tema, já que dispõem de tempo para teorizar, eu lhes forneço outro: os fatores que fazem com que o PT consiga de manter de pé a despeito de todas as lambanças. Eu tenho ao menos duas hipóteses interessantes, mas que requerem o aporte de outras ciências do comportamento:
a) As justificativas do PT sempre são de tal sorte estapafúrdias, inverossímeis, que há uma espécie de suspensão da inteligência da platéia;
b) O partido conseguiu estabelecer com o público uma espécie de cumplicidade criminosa, como se, a cada falcatrua, desse uma piscadela e dissesse: “Você sabe, no meu lugar, estaria fazendo a mesma coisa”. E isso, claro, remete a uma crise ética, da sociedade, sem precedentes;
c) A relativa leniência, apesar das investigações, dos meios de comunicação com as lambanças do PT. Reparem que, até agora, não houve o editorial definitivo: "Basta!"

Em fevereiro, a explicação de Diogo do "Caso Nahas"

Na coluna de 8 de fevereiro de 2006, na revista Veja, Diogo fazia uma síntese do que apurou sobre a atuação de Naji Nahas nos bastidores do governo Lula. A coluna se chamava “Para entender o caso Nahas”. Segue a íntegra:
*
Em maio de 2003, a Telecom Italia estava engajada naquilo que Luiz Gushiken definiu como "o maior conflito societário da história do capitalismo brasileiro". Ou seja, a guerra com o Opportunity pelo controle da Brasil Telecom. Desde a posse de Lula, o Opportunity, de Daniel Dantas, estava em dificuldade. O governo abusava de seu poder para prejudicá-lo. Antonio Palocci acuava seu principal parceiro, o Citigroup, alijando-o da emissão de títulos públicos e da concessão de créditos do BNDES. Enquanto isso, José Dirceu, Luiz Gushiken e o presidente do Banco do Brasil, Cássio Casseb, clandestinamente costuravam um acordo com a Telecom Italia. É preciso ficar de olho nas datas. Em 7 de maio, a Telecom Italia recebeu os 3,25 milhões de reais sacados em nome de Naji Nahas. Em 26 de maio, Cássio Casseb, a mando de José Dirceu, encontrou-se secretamente em Lisboa com quatro representantes da Telecom Italia, para negociar o papel de cada um na Brasil Telecom, depois que Daniel Dantas fosse afastado da empresa. Duas semanas depois, houve um segundo encontro em Lisboa, que até hoje permanecia secreto. Dois dirigentes da Telecom Italia encontraram-se com Fábio Moser, Renato Sobral Pires Chaves e João Laudo de Camargo, do fundo de pensão Previ, para discutir o organograma da futura Brasil Telecom. Em particular, quem ocuparia a diretoria financeira.

Em julho de 2003, algo mudou. José Dirceu, de uma hora para a outra, perdeu todo o interesse pela questão. Isso coincidiu com a reunião no hotel Blue Tree, de Brasília, entre Delúbio Soares, Marcos Valério e Carlos Rodenburg, sócio do Opportunity. Daniel Dantas, naquele período, soube cercar-se das pessoas certas. Da mesma forma que a Telecom Italia ofereceu um contrato milionário a Naji Nahas, Daniel Dantas ofereceu um contrato de 8 milhões de reais a Kakay, amigo do peito de José Dirceu, e um contrato de 1 milhão de reais a Roberto Teixeira, amigo do peito de Lula. O governo rachou ao meio. De um lado, ficou a turma de José Dirceu. Do outro, a turma de Luiz Gushiken, que continuou a batalha contra Daniel Dantas. Em seu depoimento à CPI dos Correios, Luiz Gu-shiken negou que, no ministério, tenha participado ativamente da disputa pela Brasil Telecom. Acredite quem quiser. Ele teve diversos encontros secretos com os dirigentes da Telecom Italia, com o único objetivo de combinar estratégias para tirar Daniel Dantas do comando da companhia. Nos primeiros meses de 2004, Luiz Gushiken encontrou-se com Giampaolo Zambeletti, em seu gabinete. Pouco tempo depois, ele jantou com representantes da Telecom Italia, na casa do publicitário Luiz Lara, para tratar do mesmo assunto. Em 2005, reuniu-se com Naji Nahas.

Correção

No post "Na urna ou na lei", havia escrito "Lula está, segundo o Datafolha, 11 pontos à frente de Lula". É claro que o correto (não do ponto de vista moral...) é "Lula está, segundo o Datafolha, 11 pontos à frente de Alckmin." Já corrigi a besteira da linguagem para ser fiel à besteira dos fatos.

A versão de Nahas para a bolada que recebeu da Telecom Italia

Na coluna de Diogo, abaixo, fala-se uma bolada de R$ 3,2 milhões que Naji Nahas recebeu da Telecom Italia. Segundo a revista italiana Panorama, o dinheiro foi parar na mão de políticos. Em entrevista à Veja em fevereiro deste ano, Nahas admitiu o pagamento. Mas nega que seja para pagar políticos. Segue a entrevista dada à revista:
*
O empresário Naji Nahas deu a seguinte entrevista a VEJA sobre sua consultoria à Telecom Italia:
O SENHOR RECEBEU O DINHEIRO DA TELECOM ITALIA? ONDE?
Sim. No meu antigo escritório, em São Paulo.
POR QUE O PAGAMENTO FOI FEITO EM ESPÉCIE?
Simples: depois de tudo o que fizeram comigo, com a liquidação da Internacional de Seguros, fiquei com meus bens bloqueados. Vivia sob ameaça de bloqueio. Como pessoa física, não tenho mais conta em banco. Por isso, recebi em dinheiro. Declarei e paguei o imposto de renda.
SEM CONTA, COMO O SENHOR FAZ PARA VIVER, FAZER COMPRAS, VIAJAR?
Com cartão de crédito. Gostaria de deixar claro que meu negócio são grandes empresas. Nunca tive negócio com político nem com o setor público. Nunca dei dinheiro ao PT ou a outro partido. Nunca me foi pedido dinheiro para o PT. O dinheiro que recebi da Telecom Italia não foi para o PT. Foi para o Naji, e foi merecido. Essa história de que Lula depende do Naji... Vou te contar... Nada como ser uma lenda.
ONDE ESSE DINHEIRO ESTAVA ACOMODADO QUANDO O SENHOR O RECEBEU?
Acho que numa mala média Samsonite. Quando chegou, mandei para minha tesouraria.
O CONTRATO PREVIA OITO PAGAMENTOS. COMO O SENHOR CONSEGUIU RECEBER À VISTA?
Eu pedi ao Tronchetti (Marco Tronchetti Provera, presidente da Telecom Italia). Estava precisando e pedi a antecipação. Não ganhei esse dinheiro sem trabalhar. Fiz acordos para resolver a disputa entre o Opportunity (banco de Daniel Dantas) e a Telecom Italia. Por meio de um deles, a Telecom Italia pôde lançar celulares com tecnologia GSM.

Naji Nahas - Uma coluna de Diogo Mainardi

Tão logo a revista Veja desta semana chegou às bancas, eu imaginei que o Ministério Público fosse se mexer. Por quê? Dentre outras coisas, por causa da coluna de Diogo Mainardi, intitulada “Notícias da Itália”, que segue abaixo. Até agora, nada aconteceu. Ali, vejam só, aparece o nome de Naji Nahas, o mesmo que, suspeita a CPI, fez um depósito na conta do inocentado — por Gedimar Passos e parte da imprensa — Freud Godoy. Leia a coluna de Diogo na íntegra:
*
O lulismo está indo para a cadeia. Na Itália.
O caso estourou duas semanas atrás. Os promotores públicos milaneses descobriram que a Telecom Italia tinha um esquema de pagamentos ilegais a autoridades brasileiras. O esquema era simples. A Telecom Italia do Brasil remetia dinheiro a empresas de fachada sediadas nos Estados Unidos e na Inglaterra. A dos Estados Unidos era a Global Security Services. A da Inglaterra era a Business Security Agency. O dinheiro depositado nas contas dessas duas empresas era imediatamente repassado a intermediários brasileiros, que o distribuíam a terceiros.
A Business Security Agency era administrada por Marco Bernardini, consultor da Pirelli e da Telecom Italia. Ele entregou todos os seus documentos bancários à magistratura italiana. Há uma série de pagamentos em favor do advogado Marcelo Ellias: 50.000 dólares em 13 de julho de 2005, 200.000 em 5 de janeiro de 2006, 50.000 em 2 de fevereiro de 2006. De acordo com Angelo Jannone, outro funcionário da Telecom Italia, Marcelo Ellias era o canal usado pela empresa para pagar Luiz Roberto Demarco, aliado da Telecom Italia na batalha contra Daniel Dantas, e parceiro dos petistas que controlavam os fundos de pensão estatais.
Entre 11 de julho de 2005 e 6 de janeiro de 2006, Marco Bernardini deu dinheiro também à J.R. Assessoria e Análise. Em seu depoimento aos promotores públicos, Marco Bernardini disse que esses pagamentos eram redirecionados à cúpula da Polícia Federal. Paulo Lacerda e Zulmar Pimentel, números 1 e 2 da Polícia Federal, devem estar muito atarefados no momento, investigando a origem do dinheiro usado para comprar os Vedoin. Mas quando sobrar um tempinho na agenda eles podem procurar seus colegas italianos.
Outro nome que está sendo investigado pela Justiça milanesa é Alexandre Paes dos Santos. Conhecido como APS, ele é um dos maiores lobistas de Brasília. Foi contratado pela Telecom Italia para prestar assessoria política. Segundo uma fonte citada pela revista Panorama, APS tinha de ser pago clandestinamente porque é cunhado de Eunício Oliveira. Na época dos pagamentos, Eunício Oliveira era o ministro das Comunicações de Lula, responsável direto pela área de interesse da Telecom Italia. Eunício Oliveira acaba de ser eleito deputado federal com mais de 200.000 votos. Lula já espalhou que, em caso de segundo mandato, ele é um forte candidato para presidir a Câmara. É bom saber o que nos espera.
A revista Panorama reconstruiu também um caso denunciado por VEJA: aqueles 3,2 milhões de reais em dinheiro vivo retirados da Telecom Italia em nome de Naji Nahas. Um dos encarregados pelo pagamento conta agora que o dinheiro foi entregue a deputados da base do governo, do PL, membros da Comissão de Ciência e Tecnologia.
Lula se orgulha de seu prestígio internacional. Orgulha-se a ponto de roubar aplausos dirigidos ao secretário-geral da ONU. O caso da Telecom Italia permite dizer que o lulismo realmente ganhou o mundo. Em sua forma mais autêntica: o dinheiro sujo.

Na urna ou na lei

A cada dia, vão se fortalecendo as evidências de que a tramóia do dossiê passou pelo comando central do PT. Agora, a CPI dos Sanguessugas investiga um depósito na conta do “inocentado” Freud Godoy. Estamos a 18 dias da eleição. Lula está, segundo o Datafolha, 11 pontos à frente de Alckmin. Trata-se de uma diferença grande. Vejam que curioso: aumentam as evidências, cresce a preferência do eleitorado por Lula, o tempo corre. Ok. Que Lula seja derrotado nas urnas. Mas é bom não esquecer de que, caso não seja, resta o caminho da lei.

O depósito na conta de Freud

Lembram-se de Freud Godoy, aquele acusado por Gedimar Passos de ter dado a ordem para disparar a operação da compra do dossiê fajuto? Na defesa entregue ao TSE, os advogados de Gedimar agora dizem que era tudo invenção de um homem extenuado... Pois é. Ele teve um depósito de R$ 396 mil em sua conta. A CPI dos Sanguessugas investiga a hipótese de o depósito ter sido feito, no dia 5 de setembro, pelo investidor Naji Nahas, por meio da corretora Alfa. Segundo a edição on line do Estadão, “a operação bancária teria envolvido uma transação com ações da Telemig. Nahas seria, supostamente, o ´cedente´, ou seja, o dono do lote de ações que acabou vendido e repassado para Freud Godoy. As ações da Telemig foram transformadas em reais, e o dinheiro depositado em uma agência do Banco do Brasil em Brasília. O dinheiro foi depois transferido para a conta da Caso Sistema de Segurança Ltda., empresa de segurança da mulher de Freud, Simone Messeguer Pereira Godoy.” É isso aí: a cada enxadada, uma minhoca. Eu não sei se Freud é ou não culpado. Sei que essa gente vive tendo de explicar coisas que não costumam ocorrer aos mortais comuns. Freud está sendo inocentado precocemente porque a mesma pessoa que o acusou agora diz que se enganou. Ok. Só que, entre uma coisa e outra, há uma demissão sumária.

Sob o signo do terror

Que podem recorrer a tudo, disso já sabemos. A tramóia envolvendo o dossiê contra José Serra o prova de maneira insofismável. E, vê-se, esse “tudo” compreende também a habilidade com que manipulam os instrumentos legais. Em meio à onda terrorista que os petistas espalham pelo país — da suposta extinção do Bolsa Família caso o PSDB vença a eleição à venda da Petrobras —, o detalhe que demonstra, vamos dizer, a profissionalização do grupo é a saída que os advogados de Gedimar Passos arrumaram para livrar a cara de Freud Godoy, ex-assessor de Lula. “Extenuado”, como disse, ele teria sido pressionado pelo delegado Edmilson Bruno a envolver alguém ligado ao presidente. E falou o nome que lhe veio à cabeça: “Freud ou Froud”.

Pronto. Quando parecia que o carrega-malas estava severamente encrencado, eis que aparece a chicana mágica. Já não está mais. Contra ele, havia o testemunho do meganha preso. Já foi retirado. Um mês depois da acusação. Bruno não foi o único delegado com quem Gedimar falou. Mas e daí? O policial se enrolou todo na divulgação de um CD com fotos dinheirama e é objeto de uma investigação da PF. Ora, abria-se uma janela extraordinária para os petistas. E eles aproveitaram.

O PT conta ainda com um gigantesco, monumental, trabalho de mídia. Já na segunda, dia seguinte ao domingo em que Lula perdeu o debate para Geraldo Alckmin — ou, se quiserem, para a sua impossibilidade de responder o “de onde veio o dinheiro? —, espalhava-se nas redações do país a versão de que o tucano usara de uma agressividade estudada, que houvera sido preconceituoso com Lula, que exagerara na dose. Os números da pesquisa Datafolha, na Folha de hoje, certamente serão usados para endossar essa leitura. Mais um pouco, e ainda dirão a máxima de Duda Mendonça: “Quem bate sempre perde”, o que é só uma tolice generalista.

A batalha que começa amanhã será bastante dura. Trata-se de lutar contra uma poderosa máquina que considera sabotagem a alternância de poder. Que, em suma, não admite perder sem que considere a derrota um “golpe”. Está ferida nos brios pelo último debate. E estará, também, a partir de hoje, embalada pelos números do Datafolha, que serão vendidos, anotem aí, como uma espécie de “vingança” ou “recado” do povo contra o “atraso”, ou sei lá que outras ficções vão inventar. Esta é a disputa que se chegou a achar que era um jogo de cartas marcadas.

Os que não queremos a reeleição de Lula temos por que nos preocupar, é claro. De um lado, há um PT que já sabemos sem limites, que acha qualquer meio legítimo desde que o fim seja não perder. De outro, há o grupo que aceita as imposições da democracia — e esse é um diferencial fundamental —, mas capaz de cometer erros muito próprios do amadorismo político, como se viu com Alckmin em Minas. Na hora da coesão, há os que investem em dissensões que, vistas hoje, em 2006, à luz de 2010, não passam de delírios. Sem contar as trapalhadas de assessores que acabam falando demais. Não porque revelem qualquer plano secreto. Mas porque ignoram que, num clima de conflagração política, qualquer palavra, mas qualquer mesmo, pode ser usada pelo adversário para espalhar ruído, não informação. Mormente um adversário que não vê problema em recorrer ao terrorismo político.

Este cenário está detalhado nas notícias que se lêem abaixo. Ontem me perguntaram por que postei dois poemas de Drummond. Porque me pareceram boas sínteses destes dias. E porque eu sabia que não ira gostar da pesquisa.

Estou preso à vida e olho meus companheiros
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.

PS: Podemos gostar ou não gostar de pesquisas. Elas podem errar ou acertar — acertam na esmagadora maioria das vezes. Peço aos leitores deste blog que não embarquem na canoa furada de pôr o Datafolha sob suspeição. É tolice. O instituto é de um profissionalismo e de uma seriedade ímpares. Já cheguei a discordar de leituras que fizeram dos números. Mas não há um miserável motivo para supor que não divulguem apenas o que apuram. A dificuldade da batalha não deve nos turvar a inteligência e a clareza. Não coloquem sob suspeição o trabalho de gente séria. É o caso.

Campanha volta amanhã à TV. Em alta temperatura

Por Ana Paula Scinocca e Vera Rosa no Estadão: “A propaganda de TV dos candidatos a presidente voltará a ser exibida amanhã em versão mais apimentada do que no primeiro turno. Tanto os responsáveis pelo programa de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) quanto os que cuidam do de Geraldo Alckmin (PSDB) preparam ataques contundentes contra o adversário, numa repetição do que se viu no domingo, no debate inaugural do segundo turno. O marqueteiro João Santana, que coordena a publicidade de Lula, decidiu reforçar o tom ofensivo, explorando as 'contradições' entre o discurso e a prática do tucano. (...) O comitê petista planeja mostrar que Alckmin fala uma coisa e faz outra. Mas não será Lula o porta-voz dos argumentos de 'desconstrução' - tarefa que ficará a cargo dos apresentadores do programa. A depender do desenrolar da campanha, será ressaltado que a insegurança em São Paulo aumentou no governo Alckmin, com ataques do Primeiro Comando da Capital (PCC). A propaganda vai insistir que Alckmin mandou engavetar 69 pedidos de comissões parlamentares de inquérito (CPIs) para 'esconder' a corrupção. (...) Responsável pelos programas do PSDB, o marqueteiro Luiz Gonzalez deverá exibir na TV imagens do R$ 1,75 milhão que petistas pretendiam usar para comprar o dossiê Vedoin. No primeiro turno, fotos do dinheiro apreendido se tornaram públicas após o fim do horário eleitoral. Também deverão ser apresentados cenas dos momentos do debate de domingo em que Alckmin foi firme ao cobrar de Lula esclarecimentos sobre escândalos. Além de explorar as denúncias contra o governo petista, os tucanos também estão dispostos a gastar parte de seu tempo na TV para negar 'a boataria' de que Alckmin, se eleito, vai privatizar estatais como os Correios e a Petrobrás e acabar com o programa Bolsa-Família, carro-chefe da campanha de Lula à reeleição.” Para ler mais, clique aqui

Revelado o segredo da suposta ONG "Amigos Plutão"; senador envolve filha de Lula e homem do dossiê

Por Rosa Costa, no Estadão de hoje: “O líder do PFL no Senado, Heráclito Fortes (PI), revelou ontem que a ONG Amigos de Plutão, à qual foi atribuído repasse de verba pelo governo federal de R$ 7,5 milhões, é nome fictício que a oposição usa para se referir a outra ONG, catarinense, que teve entre seus integrantes a filha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Lurian, e seu churrasqueiro preferido, Jorge Lorenzetti, hoje acusado no escândalo do dossiê Vedoin. O senador justificou a senha da oposição como forma de contornar o segredo judicial que protege o processo de investigação sobre o repasse de verba federal para a ONG verdadeira.Heráclito fez a revelação no meio de uma acalorada discussão com a líder do governo no Senado, Ideli Salvatti (SC), a quem acusou de esconder os delitos cometidos por ONGs de seu Estado, especificamente a que teve participação de Lurian e Lorenzetti. Ele não nominou essa ONG, mas trata-se da Rede 13, de Blumenau, cujo comando Lurian repassou a Lorenzetti antes de sua extinção.” Clique aqui para ler mais

Tucanos batem bico na área econômica

Como se erros faltassem, a bruxa andou solta na campanha tucana. Vê-se que o PT não é o único que gosta de dar tiro no próprio pé. Geraldo Alckmin vem falando, em suas intervenções públicas, que vai cortar gastos para equilibrar o Orçamento. Há uma certa curiosidade de saber de onde. Ele costuma responder que vai eliminar o desperdício. Na segunda, em entrevista à Reuters, o economista Yoshiaki Nakano, um dos seus principais assessores, afirmou que seu objetivo é cortar cerca de R$ 60 bilhões de gastos anuais do governo. Foi o que bastou para que os petistas saíssem acusando os tucanos de ameaçar o país com a recessão.

Num seminário no Rio, o mesmo Nakano, destacando que falava em nome pessoal, defendeu o controle da entrada capital especulativo no país, medida que o mercado entende como intervencionista. Sobre o câmbio, afirmou: “Desvalorizar pode, valorizar não pode.' Para comprar dólares, o governo usaria recursos de um 'fundo de estabilização cambial' a ser criado na Secretaria do Tesouro Nacional. Hoje, o BC é o único condutor da política cambial.” Ai, quem não gostou foi o mercado. Segundo informa o Estadão, “Alexandre Schwartsman, economista-chefe do ABN Amro na América Latina. Ex-diretor do Banco Central durante o governo Lula, disse que 'Nakano não entende nada de economia', criticando a idéia do ex-secretário de usar a política monetária para equilibrar o balanço de pagamentos. E, num relatório do ABN Amro, Schwartsman buscou desmontar a idéia de Nakano de um grande choque de gestão para reduzir a despesa pública em 3% do PIB.”

Faltava confusão? Entrou o próprio Alckmin para desautorizar Nakano, o que reforça a impressão de que os tucanos não têm amadurecido o debate econômico. Informa o Estadão: “Ao chegar para um ato político em Belo Horizonte, durante tumultuada entrevista, Alckmin foi categórico. 'Pelo meu (eventual) governo só falo eu.'. O tucano não comentou especificamente sobre os pontos apresentados por Nakano. Falou apenas a respeito da proposta de corte de despesas correntes em 2007, da ordem de 3% do Produto Interno Bruto (PIB). Questionado, disse que a idéia não consta de seu programa. 'Não vai cortar', enfatizou.” Para ler a respeito do imbróglio, clique aqui, aqui e aqui

Risco, agora, é mudar a linha adotada

Os números do Datafolha, vamos ver se coincidentes com os do Ibope, são um balde d’água gelada no clima de otimismo que tomou conta da campanha de Geraldo Alckmin depois do debate de domingo, em que o tucano foi visivelmente superior. O risco, agora, é perder o rumo. A ascensão, que vinha discreta, mas constante, começou quando houve uma inflexão na campanha, e esta passou a ser mais crítica, confrontando Lula. O dossiê fajuto do PT contra José Serra levou a disputa para o segundo turno. O comportamento de Alckmin no debate marcou a guinada clara, sem ambigüidades. O risco é retornar ao padrão anterior de campanha, com um candidato tecnocrático tentando confrontar um Lula que, sem prejuízo de ser triunfalista, vai agora jogar também no ataque. A esta altura, já há algumas toneladas de papel dando conta de que foi um grande erro atacar o petista no debate; que Alckmin fugiu ao seu natural; que deveria ter mantido a linha que o levou ao segundo turno — ocorre que a tal “linha” teria morrido no primeiro. O escândalo levou a disputa para o outro tempo. Assim, a única saída de Alckmin é continuar a bater em Lula com severidade, expondo-se, também, ao contra-ataque, é óbvio. Até que o imbróglio do dossiê esteja no quintal do presidente — e está, a despeito de Gedimar Passos inocentar Freud Gody —, a candidatura de Lula está maculada. Mesmo que venha a vencer.

"Lula, de onde é que veio o dinheiro?"

Por Elio Gaspari na Folha: “Lula não deve reclamar de Geraldo Alckmin. Precisa calçar as sandálias da humildade para o próximo debate, pois afogou-se na poça de platitudes de um adversário previsível, frio como papa-defunto. Alckmin tem razão: "De onde é que veio o dinheiro?" O companheiro ainda não entendeu que a falta de uma resposta a essa pergunta pode lhe custar a reeleição e um pedaço da biografia. Lula passou os últimos quatro anos sem ouvir o contraditório. Diante dele, olho no olho, ao vivo e a cores, desconcertou-se. O peso da banda áulica no Palácio do Planalto de Nosso Guia só tem paralelo no governo do general João Figueiredo (1979-1985). A linguagem chula e a maneira destemperada como Lula trata seus colaboradores faz de Figueiredo uma carmelita. Diz o que quer e só ouve o que quer. O entorno dos governantes isola-os das adversidades e das contraditas. O café vem como ele gosta. O assessor que carrega a toalha para enxugar o suor está sempre por perto. (Lembrai-vos do curador de almofadas para as pernas curtas do imperador etíope Hailé Selassiê.) Pode-se contar nos dedos quantas vezes um presidente é obrigado a teclar uma chamada telefônica. (Harold Wilson, primeiro-ministro inglês durante oito anos, confessou que, ao voltar à vida real, o que mais estranhou foi discar o telefone.) Alguns, como Fernando Henrique Cardoso, têm senso de humor para rir das portas que se abrem sozinhas. Outros acreditam que porta fechada é desaforo.Clique para ler mais

Lula e seus rapazes: Delfim, Mercadante, Frank Aguiar e Agnaldo Timóteo

Por Fabiane Leite, na Folha:Em evento de mobilização de sua campanha na noite de ontem, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) transformou em ‘estrela’ o deputado federal Delfim Neto (PMDB). Em homenagem a Delfim, que não conseguiu se reeleger, Lula reconheceu os avanços econômicos do período da ditadura militar, quando Delfim foi ministro da Fazenda (de 1967 a 1974). Para o presidente, Delfim não se elegeu por ‘vingança de um conjunto de elitistas, porque ele defendia a nossa política.’ Segundo Lula, Delfim foi a ‘única voz’ defendendo sua política econômica. ‘Ele dizia que era preciso fazer o que fizemos, mas precisava ter em conta que a economia deveria crescer mais rapidamente’, afirmou. (...) Delfim estava na primeira fila de cadeiras colocadas no palco do clube Tietê, na zona norte de São Paulo, junto com Marta Suplicy (...) e Aloizio Mercadante. ‘Quero dizer da minha alegria de estar aqui com Delfim, uma das pessoas de quem a gente mais divergia na década de 70. Eu, como dirigente sindical, fazia todas as críticas numa época em que a gente tinha contradição no Brasil muito forte. Ao mesmo tempo tinha o auge do autoritarismo militar, tinha o auge do crescimento econômico’ (...) No evento, Lula recebeu o apoio de Ana Maria Rangel, candidata derrotada do PRP à Presidência, do vereador Agnaldo Timóteo (PL-SP) e do deputado federal eleito Frank Aguiar (PTB-SP).” Clique aqui para ler mais

Depois de errar no Rio, Alckmin agora erra em Minas

Vocês sabem o que penso sobre a reeleição de Lula e o risco que ela representa. Mas também não tenho nenhum compromisso com o erro. Especialmente com o erro daqueles a quem apoio. Quando o tucano Geraldo Alckmin se encontrou com Anthony Garotinho sem que isso tenha sido prévia e devidamente debatido com as lideranças que já o apoiavam no Rio, critiquei a postura. Como também apontei o exagero nas reações de César Maia e Denise Fossard. Alckmin cometeu nesta terça uma outra imprudência. Desta feita, em Minas.

Em discurso em Belo Horizonte, sugeriu que Aécio Neves, governador reeleito de Minas, é seu candidato à Presidência da República. Ao lado de Aécio, comentou, segundo a Folha: “‘Não vamos continuar perdendo oportunidades, esperando mais quatro anos, esperando 2010. É claro que nós queremos 2010, né?’, disse Alckmin, interrompido pelos aplausos das cerca de 1.300 pessoas na casa de shows onde ocorreu o ato. ‘Cada um dá um passo. Isso é uma corrida de revezamento, um vai passando o bastão para o outro’, afirmou. ‘O PT já teve a sua chance. Agora é time novo para trabalhar pelo bem do Brasil. Minas vai estar conosco nessa caminhada cívica’”

Olhem, compreendo que possa deixar-se contaminar pelo clima. Acho razoável que considere Aécio Neves um postulante à Presidência, mas um erro é um erro é um erro. A hora, parece-me, é de juntar apoios, não de decretar a forma do futuro. Para quem tem uma eleição daqui a menos de três semanas, estando ainda bastante atrás, por mais que Minas seja um colégio eleitoral importante, e é, é evidente que se trata de uma precipitação. A pergunta é óbvia: Alckmin, que ainda não está eleito, está descartando a candidatura de José Serra, por exemplo? Por quê?

Um líder tem de saber que a política deve obedecer a certos rituais, muitos deles gêmeos da lealdade. Alckmin tem claro que o alvo do dossiê dos petistas não era ele, mas Serra. Quando os petistas e todo mundo davam como certa a eleição no segundo turno, foi esse escândalo que tirou a eleição de Lula. Em São Paulo, o agora governador eleito trabalhou e trabalha ainda pela sua eleição. No mesmo dia do evento em Minas, estava em Santa Bárbara d'Oeste fazendo campanha. Quase 500 mil votos separaram Alckmin de Serra no Estado, que têm de ser conquistados. Se, em Minas, o candidato mais forte era “Lulécio”, nunca de falou de um “Lulerra” em São Paulo.

Já se cometeram erros demais nessa campanha. E parece que a disposição para continuar a cometê-los é irresistível. Nesta terça, este foi apenas um dos erros do dia. Sem contar a má notícia do Datafolha, nesta quarta. Para ler mais, clique aqui