BLOG
"Não há nenhum pensamento importante que a burrice não saiba usar, ela é móvel para todos os lados e pode vestir todos os trajes da verdade. A verdade, porém, tem apenas um vestido de cada vez e só um caminho, e está sempre em desvantagem"
Robert Musil em O Homem sem Qualidades

Sábado, Outubro 21, 2006

E o outro, claro, é Marcelo Coelho

A outra besteira do dia, também nada surpreendente, é de autoria de Marcelo Coelho. Como nada de extraordinário está acontecendo no Brasil ou na campanha eleitoral, dedicou sua coluna a generalidades sobre a disputa para chegar ao lugar a que sempre chega quando não está lendo Harry Potter. Coelho não gosta de FHC. Glosando Montaigne ou tentando ser o papai sabe-tudo, no fim, quem apanha é sempre o ex-presidente. Assim ele conclui sua coluna de hoje: “O rótulo [de privatista] funcionou para associar a candidatura Alckmin ao impopularíssimo governo Fernando Henrique Cardoso. O debate eleitoral tornou-se, em boa medida, um julgamento dos anos FHC; Alckmin poderia ser muito melhor candidato do que é, mas do ponto de vista eleitoral paga um preço altíssimo por essa ‘herança maldita’”. Opinião é como a parte terminal do aparelho digestivo: todo mundo tem. Que se reconstituam os números das pesquisas e a trajetória de Alckmin, e se vai verificar que o governo FHC ficou fora da disputa a maior parte do tempo. Tempo em que Alckmin perdia no primeiro turno! O episódio do dossiê levou ao segundo, e então começou a campanha terrorista do PT, à qual os tucanos não conseguiram responder. Se Alckmin perdia “sem o governo FHC” e perde agora “com o governo FHC”, tal fator é irrelevante. Mas aí Coelho fica sem assunto para suas orelhas iluministas. Herança maldita? Este senhor escreve sobre política, economia e educação sentimental. Eu duvido que ele saiba o que é ou para que serve a Taxa Selic, por exemplo. Compõe o enorme batalhão da imprensa que toca flauta para o PT. Nesse sentido, Mino Carta e Paulo Henrique Amorim são bem mais honestos: não têm nenhum pudor em exibir os joelhos escalavrados.

Cony precisa voltar a ser cronista de pet shop

Muitos leitores se perguntam por que Lula está sendo reeleito, mesmo com toda a óbvia roubalheira havida nestes quatro anos. É claro que há razões de ordem econômica — ou paraeconômica. Lula transformou o assistencialismo em máquina eleitoreira. Mas não é só isso. Conta também com prosélitos na classe média, os chamados intelectuais. Dois artigos na Folha de hoje dão conta da delinqüência intelectual que toma conta do debate. Um deles é de Carlos Heitor Cony, de que falo primeiro.

Escreve o homem na página 2: “A questão das privatizações voltou ao debate político, trazida pelo PT, que encontrou em seu adversário eleitoral, o candidato Geraldo Alckmin, um único pecado realmente grave: é do PSDB, partido que no governo desastrado de FHC privatizou empresas e só não vendeu o Pão de Açúcar porque não encontrou comprador. Em principio, não sou contra as privatizações, algumas delas eram necessárias e trouxeram benefícios à economia nacional. Contudo, o processo que presidiu as privatizações foi um escândalo dos maiores de nossa história. Os intermediários, corretores, conselheiros e economistas ganharam fortunas vendendo na bacia da almas alguns nacos do patrimônio nacional.”

Cony tinha uma cadela sobre a qual costumava escrever textos líricos. Infelizmente, a bichinha morreu. Fazendo crônicas para agradar velhinhas de pet shop, ele era bem mais divertido. Chato é que lhe dêem um espaço nobre no jornal — a nobreza possível hoje em dia — para exercer a sua ignorância ligeira. O gracejo sobre o Pão de Açúcar é uma pilantragem intelectual. Isso é que ganhar dinheiro fácil (arte em que Cony é mestre) com imagem vagabunda!

Ah, mas ele não quer parecer um velhinho atrasado! Isso nunca! Não é contra as privatizações — “em princípio”, é claro. Segundo diz, “algumas” (não fala quais) eram necessárias, mas depois fala de escândalos e da venda do patrimônio público “na bacia das almas”. É mentira que as estatais brasileiras tenham sido vendidas a preço baixo. As empresas do sistema Telebrás valiam em bolsa, algum tempo depois, muito menos do que o valor pelo qual foram privatizadas. Ignora-se que, à esteira da privatização, houve investimentos de mais de R$ 100 bilhões, o que não teria acontecido se fossem estatais.

Mas é daí? A especialidade de Cony é fazer prosopopéia sobre cadelinhas. Só escreve sobre privatizações quando está sem assunto e ninguém fez xixi no tapete. Depois Cony se mete a falar de forma desastrada sobre o tamanho da dívida pública, confundindo tudo, com se a venda das estatais é que tivesse sido responsável pelo seu aumento. O raciocínio idiota, dele e de outros que pensam como ele, consiste em supor que o único objetivo da privatização era pagar a dívida. Esse era um efeito secundário. Precisávamos das privatizações para ter investimento. Acho que Cony não adotou nenhuma cadela nova. Cabeça desocupada é a morada do capeta.

Outra coisa: indecente é receber a indenização mensal que ele recebe — próxima de R$ 20 mil, se é que já não foi corrigida — por ter sido uma suposta vítima da ditadura. E não foi só, não, leitor amigo: ele levou ainda R$ 1,5 milhão numa bolada só. Por quê? Ah, porque sua carreira de jornalista teria sido interrompida pelo golpe militar. O jornal em que ele trabalhava não existe mais. Ele foi premiado como se, sem o movimento militar, pudesse ter atingido o topo da carreira: diretor de redação, suponho — duvido que os herdeiros do dono do jornal estejam tão ricos quanto ele. Ah, coitadinho! Cony foi demitido e ficou na rua da amargura, é isso? Que nada! Virou homem forte de Adolfo Bloch, no grupo Manchete, então muito forte, e jamais teve problema para comprar papa fina para suas cadelas. Escrevia crônicas lindas sobre o mármore rosa de sua sala...

referindo-se a casos como o seu, o ministro Gilmar Mendes, do STF, observou que se trata de uma "verdadeira distorção ou patologia, que muito se aproxima de um estelionato". É o que eu também acho. Cony deveria doar a dinheirama do “patrimônio público” aos desdentados e voltar a enganar velhinhas de pet shop com texto sobre cadelinhas amorosas.

Ah, sim: os que não gostarem deste texto tenham a bondade de enviar e-mails de solidariedade pra ele em vez de e-mails de protesto pra mim.

ENTRE OUTROS ASSUNTOS, LEIA:
- O FILHO DE LULA EM VEJA: LOBISTA E MILIONÁRIO
- OS PETRALHAS E O ÓDIO À INDEPENDÊNCIA: VIVA A VEJA, VIVA A VAIA
- DIOGO E O GARGANTA PROFUNDA

Estratégia do grupo de Alckmin: então tá...

Informa José Alberto Bombig na Folha de hoje: "Mesmo 19 pontos atrás do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), segundo o Datafolha, o tucano Geraldo Alckmin não deve transformar o final da corrida ao Planalto em um "vale-tudo eleitoral".O "vale-tudo", avalia o grupo próximo a Alckmin, provocaria rejeição ao o ex-governador.O grupo também argumenta que Alckmin teria de mudar radicalmente o perfil de político conciliador e técnico. A guinada confundiria o eleitor.Foi essa a linha que prevaleceu no debate do SBT anteontem à noite e que será mantida na campanha da TV e no debate de segunda, na TV Record.Alckmin tentará virar o jogo com criticando o governo, o presidente e o PT, mas sem abordar assuntos familiares ou pessoais, parecendo respeitoso."

Vedoim e sua propina de mãe

Não sou investigador de Polícia, repórter investigativo ou algo semelhante. Mas certas coisas chamam a atenção. Vejam o que informa Hudson Corrêa e Leonardo Souza na Folha deste sábado: “O empresário Darci José Vedoin, 60, confirmou ontem à Justiça Federal em Cuiabá que a máfia dos sanguessugas subornou Abel Pereira, amigo do ex-ministro da Saúde no governo FHC e atual prefeito de Piracicaba (SP), Barjas Negri (PSDB). (...) Luiz Antônio entregou à Justiça, no dia 14 de setembro, comprovantes de depósitos e cópia de nove cheques, totalizando cerca de R$ 600 mil. Segundo o empresário, os valores correspondiam a propina paga a Abel. Luiz Antônio disse que Abel conseguiu a liberação de R$ 3 milhões a R$ 3,5 milhões no Ministério da Saúde, no fim de 2002, devido à sua ligação com Barjas." Leia íntegra aqui. Estranho... Uma propina de nada menos do que 20% para emendas que já estavam liberadas, fora o que ainda tinha de ser pago a parlamentares e prefeitos? Huuummm. A Polícia que investigue. Mas é inverossímil. Isso não é pagamento de corruptor, é generosidade de mãe...

Veja 4 - Diogo e os R$ 150 mil de Freud Godoy

A coluna de Diogo Mainardi chama-se “Lula é o PT”. Acompanhem: “Na última terça-feira, Garganta Profunda me passou os dados de um documento bancário de Freud Godoy, encaminhado pelo Coaf à Polícia Federal. Em 24 de março de 2004, ele depositou 150 000 reais na conta da empresa de sua mulher, Caso Sistemas de Segurança. Importante: 150 000 reais em moeda sonante. No documento bancário, Freud Godoy declarou que o dinheiro era fruto de ‘serviços prestados a clientes’. Isso contradiz tudo o que ele alegou até agora. Num primeiro momento, disse que sacou os 150 000 reais para comprar equipamentos. Depois, informou que pediu um empréstimo a um amigo. Mentira. Não foi saque nem empréstimo: foi um depósito. O fato é que ninguém sabe de onde saiu tanto dinheiro e por que foi parar na conta do gorila particular de Lula. (...). Em 23 de março de 2004, um dia antes de Freud Godoy depositar 150 000 reais na conta de sua mulher, foram sacados 150 000 reais da conta da SMPB, de Marcos Valério, no Banco Rural. Tudo em moeda sonante. Tudo de origem desconhecida. (...) Na época do depósito, Freud Godoy era assessor direto de Lula. (...) Lula está praticamente reeleito. Os brasileiros o perdoaram. Mas a bandidagem da qual ele se cercou continuará a rondá-lo para sempre. (...) Lula é Delúbio Soares. Lula é Marcos Valério. Lula é o golpismo do mensalão e do dossiê Vedoin. Abra a porta, Lula. Toc-toc-toc.”
Assinante lê a íntegra aqui
Clique aqui para assinar

Veja 3 - "Five-fingers" em Congonhas


Por Júlia Duaili: "Ao inaugurar, em dezembro do ano passado, parte das obras de ampliação e modernização do Aeroporto de Congonhas, na cidade de São Paulo, o presidente Lula elogiou o então presidente da Infraero, Carlos Wilson, pela 'dedicação' e pela 'contribuição extraordinária que fez ao Brasil'. Dez meses depois, o Ministério Público Federal e o Tribunal de Contas da União começam a desvendar o lado obscuro de uma contribuição extraordinária de Wilson. Superfaturadas, as obras podem ter causado ao Erário uma perda superior a 100 milhões de reais. Com base em ampla pesquisa de mercado realizada pelo TCU, o Ministério Público constatou preços de 31% a 252% acima dos de mercado num conjunto de 29 produtos e serviços. O caso mais escandaloso é o da compra das chamadas pontes de embarque (ou fingers, em inglês), que dão ao passageiro acesso ao avião. A Infraero pagou ao consórcio vencedor a bagatela de 2,2 milhões de reais por unidade. Com base em outras compras idênticas feitas pelo poder público, o TCU constatou que cada finger não custaria mais do que 630.000 reais. Também houve superfaturamento de 226% nos serviços de fundação da obra. Cobraram-se, por exemplo, 354,15 reais por estacas que não deveriam custar mais de 108,60 reais. "
Clique aqui para ler mais
Clique aqui para assinar a Veja

Veja 2 - O PT e o coronelismo da era digital

Por Otávio Cabral: “O PT e seus aliados de esquerda sempre amargaram um medíocre desempenho eleitoral no Nordeste. Em 2002, mesmo com Lula vencendo a eleição para presidente da República, o fiasco na região só não foi total graças à vitória de Wellington Dias para o governo do Piauí. Desde a proclamação da República, o poder na região é exercido pelos chamados coronéis – pessoas com dinheiro e influência que sempre conduziram o processo político de acordo com suas conveniências. Essa antiga máquina de produzir votos, que nas últimas três décadas esteve a serviço de partidos como PFL e PMDB, está mudando de cara. Dos cinco governadores nordestinos eleitos no primeiro turno, três são petistas: Jaques Wagner, da Bahia, Wellington Dias, do Piauí, e Marcelo Déda, de Sergipe. O governador eleito do Ceará, Cid Gomes, irmão do ex-ministro Ciro Gomes, é do PSB e tem um petista como vice. Em dois dos quatro estados onde haverá segundo turno, os candidatos apoiados pelo PT estão liderando as pesquisas: Eduardo Campos, em Pernambuco, e Wilma de Faria, no Rio Grande do Norte, ambos do PSB. Pela primeira vez na história, o PT e seus aliados tiveram mais votos no Nordeste do que os caciques tradicionais. Esses resultados poderiam ser comemorados como a correção de um vergonhoso defeito da democracia brasileira – o da compra de votos. Infelizmente, não é bem assim. A ascensão dos petistas nordestinos ao poder, ao contrário do que se imagina, não representa o fim do caciquismo político ou do voto de cabresto. Saíram de cena os velhos coronéis de revólver na cintura para dar lugar a uma liderança na aparência mais moderna, mas nem por isso menos perniciosa. ‘A vitória dos aliados de Lula no Nordeste é a vitória do coronelismo da era digital. O cartão do Bolsa Família é a institucionalização da compra de votos’, diz o deputado José Carlos Aleluia, do PFL baiano.”

Veja 1 - O Estalo de Lulinha: de monitor de zoológico a milionário, o filho de Lula, os amigos, o lobby e as relações com o encrencado APS

Lulão (ao fundo) e Lulinha em montagem publicada pela Veja (fotos de Lula Marques/Folha Imagem e Luciana Prezia/AE)
Quando o debate é crescimento econômico, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva defende a estranha tese de que se deve evitar a comparação do Brasil com outros países. Diz ele que ela tem de ser dar com o nosso próprio desempenho. Talvez pense o mesmo sobre escândalos. Pois bem... Mesmo comparando o padrão de seu governo com o histórico da moralidade pátria, estamos diante de uma realidade de assustar. Alexandre Oltramari conta em detalhes a formidável ascensão de Fábio Luiz da Silva, filho do presidente Lula, na Veja desta semana.

Em entrevista à Folha, o Apedeuta afirmou que Lulinha é o seu “Ronaldinho”, atribuindo a seu garoto — nem tanto assim: já tem 31 anos — dons fenomenais. Quem leu a história da Veja e se decepcionou porque “não seria uma bomba atômica” está sob o que eu chamaria “Efeito Esculhambação”: estamos começando a perder a noção do certo e do errado, a ficar sem parâmetros. Que Lulinha era monitor de Jardim zoológico até o fim de 2003 e hoje é um milionário, disso nós já sabíamos, é fato. As oposições sempre evitaram tocar no assunto porque seria “questão pessoal”. Coisa nenhuma!

Até os 28 anos, esse rapaz ganhava R$ 600. Padre Vieira, conta a lenda, era um tanto idiota. Teria tido uma dor de cabeça, um desmaio, e acordado gênio. O episódio ficou conhecido como “O Estalo de Vieira”. Pois bem, já se pode falar de um “Estalo de Lulinha”. O cara era monitor de zebra, paca e girafa até outro dia. O pai chega à Presidência, e ele se torna um fenômeno, um Ronaldinho dos negócios. A reportagem de Veja não é repeteco de nada, não. E vai muito além do que era conhecido.

O que não é novo
Já se sabia, em síntese, que, em novembro de 2003, Lulinha havia se tornado sócio de Fernando e Kalil Bittar, filhos de Jacó Bittar, amigo de Lula, numa empresa que acabou resultando na Gamecorp. Também era sabido que a Telemar — uma concessão pública, com quase metade do capital dividido entre o BNDES e fundos de pensão — injetara nada menos de R$ 15 milhões no empreendimento, tornando-se sócia dos rapazes. Também não é novidade que esses empreendedores “alugam” hoje seis horas diárias da grade do Canal 21 (mesmo grupo da Band) e que, após o contrato, o canal até mudou de nome: PlayTV. O mercado publicitário — isso não está na Veja, estou afirmando eu, especula sobre uma eventual venda de gaveta do já antigo Canal 21 para estes empedernidos schumpeterianos.

O que não se sabia
O que é novidade — e é coisa da maior gravidade — é que Lulinha e seus amigos se tornaram, na prática, lobistas com trânsito no Palácio do Planalto. E com tal força, que a lei que regula as teles só não foi mudada porque a própria Veja noticiou a associação da Telemar com a Gamecorp em julho do ano passado.

Leiam um trecho da reportagem: “O caso de Lulinha tem uma complexidade maior. Sua relação com a Telemar não se esgota nos interesses de ambos na Gamecorp. O filho do presidente foi acionado para defender interesses maiores da Telemar junto ao governo que o pai chefia. Em especial, em setores em que se estudava uma mudança na legislação de telecomunicações que beneficiava a Telemar. VEJA descobriu agora que a mudança na lei foi tratada por Lulinha e seu sócio Kalil Bittar com altos funcionários do governo. O assunto levou a dupla a três encontros com Daniel Goldberg, titular da Secretaria de Direito Econômico do Ministério da Justiça (SDE). Em um desses encontros, ocorrido no início de 2005, Lulinha e Kalil, já então sócios da Telemar, sondaram o secretário sobre a posição que a SDE tomaria caso a Telemar comprasse a concorrente Brasil Telecom – fusão que a lei proíbe ainda hoje. Goldberg, ciente do obstáculo legal, disse que o negócio só seria possível mediante mudança na lei. O estouro do escândalo Lulinha abortou os esforços para mudar a legislação e favorecer o sócio do filho do presidente.”

Seria só isso?
Mas não é só isso. Lulinha e seus amigos passaram a ter uma relação íntima com APS. Tão próxima, que ganharam uma sala exclusiva na mansão em que o homem trabalha. Ops! Quem é APS? A Veja explica:

O lobista Alexandre Paes do Santos é homem de relações perigosas e de uma vasta ficha criminal. APS, como ficou conhecido em Brasília, fez carreira – e, posteriormente, fama policial – no submundo das negociatas da Esplanada dos Ministérios, aproximando-se de raposas da política e cultivando a imagem de personagem misterioso e poderoso. As estripulias de APS nas sombras de Brasília vieram a público em 2001, quando a Polícia Federal apreendeu a agenda do lobista. Ali, escondia-se o inventário das atividades subterrâneas de APS, como pagamentos de propinas a parlamentares e funcionários do governo, histórias de chantagens e esquemas de superfaturamento em contratos com órgãos públicos. Minucioso e detalhista, o lobista anotava na agenda valores de suborno ao lado da letra "K", que os investigadores descobriram tratar-se de um código que correspondia ao acréscimo de três zeros ao valor registrado. Ao lado de nomes de deputados e servidores públicos havia, por exemplo, a inscrição "50K" (ou 50 000, reais ou dólares).”

E a Veja prossegue: “Além da sala, APS também colocou sua frota à disposição da dupla. Quando Lulinha e Kalil começaram a freqüentar o escritório do lobista, seus deslocamentos por Brasília eram feitos em Ford Fiesta. Com cerca de 1,90 metro de altura, Kalil reclamou que o Fiesta era desconfortável e disse que gostaria de um carro mais espaçoso. APS substituiu o Fiesta por um Omega. Enquanto despachavam na mansão de APS durante o dia, Kalil e Lulinha eram hospedados na Granja do Torto ou no Palácio da Alvorada, residências oficiais da Presidência da República. Quando isso não era possível, Kalil ia para o hotel Blue Tree, a menos de 1 quilômetro do Alvorada. Não se conhecem bem as razões pelas quais Lulinha e Kalil mantinham uma sala no escritório do lobista de métodos heterodoxos. O que faziam ali? Por que despachavam dali? Em busca dessas respostas, VEJA descobriu que a sala foi cedida a Lulinha e Kalil como parte de um acordo dele com a francesa Arlette Siaretta, dona do grupo Casablanca, um conglomerado de 54 empresas que, entre outras atividades, faz produção de filmes e eventos, gravação de comerciais e distribuição de DVDs.”

Bem, queridos leitores, vejam o resto na revista. Vocês gostarão de saber como foi que Siaretta foi introduzida nas altas esferas do círculo petista, como isso passou a lhe render dinheiro e o quanto isso beneficiou Kalil Bittar, o grande amigo de Lulinha. Volto à questão que muitos me fizeram: isso vira a eleição? Virar a eleição não é tarefa de revista nenhuma, mas dos eleitores e da maior ou menor importância que a moralidade pública possa ter nas suas escolhas. Uma coisa eu sei: a reportagem noticia com desassombro o que apurou. Com muito mais coragem do que as oposições tiveram até agora. E olhem que a revista não disputa o poder.

Vai mudar tudo?

Vocês viram apenas a capa da revista. Seria conveniente esperar a reportagem, não? É uma bomba atômica para mudar o rumo da eleição e da história? Sei lá eu! O que vocês esperavam? Que a Veja decretasse a ilegalidade da candidatura de Lula? Isso não cabe à revista, à imprensa, ao jornalismo. Cabe-lhes relatar, como se verá logo mais, o que foi apurado. E as instituições que cumpram a sua vocação. O fato é que, até agora, a história de Fábio Luiz da Silva era inexpugnável. As próprias oposições, como sabemos, se negaram e ainda se negam a tocar no assunto. O candidato tucano Geraldo Alckmin evitou o tema em todos os debates. Os leitores têm o direito de conhecer a fantástica vocação schumpeteriana do filho do presidente que se quer simpático ao socialismo. “Vai dar para tirar a diferença até o outro domingo, tio Rei?” Há gente que faz revista para salvar candidatos e garantir os brioches e as trufas de cada dia. Veja não faz nem para salvar nem para derrubar. Apenas cumpre um compromisso com o leitor.

A capa. Logo vem mais

Na Veja: "Porque não pode todo mundo ser o Ronaldinho"

Ao tentar explicar o tremendo sucesso de seu filho Fábio Luis, cujo enriquecimento é um caso raro no mundo dos negócios, o presidente Lula disse: "Deve haver um milhão de pais reclamando: 'por que meu filho não é o Ronaldinho?' Porque não pode todo mundo ser o Ronaldinho." É, pois é... Nem todo mundo pode.

Verdades, mentiras e verossimilhanças

Por prudência, jamais afirmo que o que dizem os petistas “é verdade”. Vocês viram o que aconteceu com os que andaram dando atestado de boas maneiras a Freud Godoy, né? Então, no máximo, sustento que as coisas que dizem são verossímeis ou inverossímeis. Conforme antecipei aqui, Dirceu havia falado com Jorge Lorenzetti. Ele e seu esquema midiático se encarregaram de vazar primeiro a informação — sem citar o nome do churrasqueiro, que também falou com Gilberto Carvalho, chefe de gabinete de Lula (mais um homem do presidente no rolo).

Carvalho diz que só falou com Lorenzetti porque, quando soube das prisões, ligou para indagar que diabo havia acontecido. Querem saber? Até que acho a sua história verossímil, embora, obviamente, seja mais um dado a evidenciar a intimidade de Lula com os aloprados. Mas o que realmente torna tudo mais sério é o telefonema de Dirceu. Justamente para o chamado “chefe da inteligência” da campanha? E justamente no meio da bagunça toda?

Lembram-se aquela frase de Talleyrand sobre os Bourbons? “Não aprenderam nada. Não esqueceram nada”. São os petistas. Dirceu continua onde sempre esteve. No comando. No poder. A esquerda, historicamente — e desafio alguém a me demonstrar o contrário —, nunca viu qualquer mal em recorrer ao que estivesse ao seu alcance para executar o seu projeto. Lula está nesse meio, ainda que por oportunismo e porque, poderia dizer Cora Rónai, ele “é um bom pai”.

Uma boa pauta para os jornais: do que andam vivendo os petistas todos que, aparentemente, caíram em desgraça? Com que dinheiro vão ao supermercado e pagam água, luz, condomínio, telefone, escola das crianças? Dirceu, a minha anti-Conceição... “Estranhos caminhos pisou”, e, “ao descer, subiu”.

E viva a "Veja". E viva a vaia!

Nunca, como hoje — e é a razão principal por que não estou conseguindo postar na velocidade costumeira —, recebi tantos comentários me esculhambando. Entram na lista dos petralhas, claro, a Veja, o Diogo Mainardi, e, suspeito, entraria o Espírito Santo caso a Pomba Sagrada descesse à terra para anunciar que Lula é um falso Messias. Dariam uma estilingada nela. É uma coisa impressionante.

Sabem o que acho mais chocante? Se a disputa estivesse ao menos empatada — ou se fosse pequena a distância entre Lula e Alckmin, pouco importando quem estivesse na frente —, eu até compreenderia tanta manifestação de ódio. Ou, ao menos, eu não a consideraria patológica. Mas não. Imaginem se o Ibope estiver certo: Lula dará um verdadeiro banho eleitoral. Deveriam estar comemorando, fazendo festa, dançando. Que nada! Estão em casa ou sei lá onde destilando seu ódio, sua vocação para a unanimidade, para o discurso único, para a ditadura.

É claro que isso é coisa de militância organizada. É curioso. A palavra de ordem nestas hordas é “Delenda Veja”, a revista que tomam como inimiga. E nem se sentem constrangidos em usar como exemplo de jornalismo, imaginem só, a Carta Capital. É aquela revista que teve acesso à fita em que o delegado Edmilson Bruno vaza o disquete com as fotos da dinheirama e tem o topete de cortar os trechos que não servem aos propósitos da suposta reportagem-denúncia. E corta por quê? Para fabricar uma farsa e tentar provar que TV Globo liderou um complô para levar as eleições para o segundo turno.

Ali Kamel, editor executivo de jornalismo da Globo, responde à acusação em texto publicado no site Observatório da Imprensa (clique aqui para ler). Seus argumentos são irrespondíveis. Tramóia é editar uma fala que desautoriza uma tese de gabinete, pensada na medida exata para satisfazer as vontades de um grupo político — não por acaso, daquele que costuma pagar as contas. Interessante: há certo jornalismo que ainda está por aí assombrando as consciências e que já é cadáver adiado. Continua vampirizando as boas intenções de alguns tolos, mas já não consegue produzir mais nada de útil.

A Carta Capital, por si mesma, chega a tão pouca gente, que parece perda de tempo dedicar mais do que duas linhas à sua irrelevância. Só o faço porque ela é, assim, o Pestana da tropa. “Pestana” é aquela personagem do conto Um Homem Célebre, de Machado de Assis. Seu sonho era fazer uma sinfonia, mas só conseguia fazer polca. Mino Carta, o comandante da revista, tem ambições de ser intelectual, político, artista plástico, Richelieu de Apedeuta, uma espécie de decano do “verdadeiro jornalismo”, de que Paulo Hernique Amorim, agora fora da Globo, se pretende caudatário. Este foi outro que procurou fazer estardalhaço com a tal fita-bomba do delegado.

Qual o problema dessa gente toda com as grandíssimas Veja e Globo ou com os indivíduos, homens-célula, Diogo Mainardi ou Reinaldo Azevedo? Simples: a gente publica ou leva ao ar coisas que eles não gostam de ler ou de ver e ouvir. Reparem que nunca denunciam uma “mentira”. Estão sempre tentando denunciar uma intenção. Porque assim agem os policiais de consciência. Eu digo sobre a matéria de capa de Carta Capital: é MENTIRA que tenha havido uma conspiração da Globo para empurrar a disputa para o segundo turno. Mas a Carta não poderá dizer: “É mentira que a gente tenha omitido trechos da fala do delegado”. Porque omitiu.

Nos tempos em que a palavra de ordem é “somos todos canalhas”, ou “somos todos corruptos”, ou “somos todos ladrões”. Eu digo: NÃO SOMOS, NÃO! Cada um fale por si. Há muitas diferenças entre a “nossa” moral e a “deles”, para citar um texto célebre de Trotsky, subvertendo bastante as intenções do original. A “nossa” moral não precisa da mentira e da omissão para denunciar complôs em nome do bem; a "nossa" moral não precisa condescender com “males menores” na suposta defesa do “bem maior”; a “nossa” moral não reconhece como legítimos o roubo e a ilegalidade em nome da causa.

Não posso falar em nome da Veja ou da Globo. Nem mesmo em nome de Diogo Mainardi, meu amigo. O bom de você não ser um “deles” é não ser, a exemplo dos demônios, uma legião chefiada por um diabo anão, também anão moral. Mas posso falar em meu nome: não terão descanso enquanto não se ajoelharem, lá vai, no altar da ortodoxia constitucional. Acabo de conceder uma entrevista a um dos principais jornais dos EUA — não é o NYT, Lula! A pauta deles é curiosa. Falaram comigo como um dos poucos jornalistas brasileiros que ainda não se renderam ao lulismo ou ao petismo. Nem eu sabia que cabíamos numa Kombi.

Podem continuar a patrulhar à vontade. Comentários de petralhas andaram vazando por causa do volume de comentários. Daqui a pouco, faço um serviço de desratização. Não, não vou mudar. Meu blog não é estatal. Já nasceu privatizado. Aqui, aparelhista leva pé no traseiro.

E viva a Veja! E viva a vaia!

Sexta-feira, Outubro 20, 2006

20, 22, 24...

Vocês já sabem o que eu acho das pesquisas que estão aí. Não fico dando murro em ponta de faca. Acabam de ver a do Ibope, com 24 pontos de diferença nos votos válidos: 62% a 38% para Lula. No Vox Populi, a distância é de 22 (61% a 39%) e, no Datafolha, de 20 (60% a 40%). Está tudo dentro da margem de erro. Peguem os dois extremos, Datafolha e Ibope: acrescentem dois pontos a Lula e tirem 2 de Alckmin no caso de um instituto e se chega ao resultado do outro. Não sei se os números são esses, mas, na minha opinião, refletem o estado geral das artes. Mesmo considerando os erros da campanha de Alckmin, que são gigantescos, gritantes, absurdos, o resultado é um tanto aterrador para a sociedade brasileira. Passarão a ser ainda mais absurdos daqui a pouco.

Enigmas 3 - "Papai Sabe Tudo"


O ator Robert Young (centro) era Jim Anderson, o pai bacana e sabichão de uma família feliz. Papai Sabe Tudo (Father Knows Best) era um seriado que começou no rádio, nos EUA, em 1949, e foi parar na TV em 1954, permanecendo no ar até 1960, num total de 203 episódios. Nos anos 60 e 70, foi transmitido no Brasil pelas TVs Tupi e Globo.

Enigmas 2 - Birds...

Enigmas... Um trecho da música "Pai Herói"

Pai, você foi meu herói meu bandido,/
hoje é mais muito mais que um amigo/
Nem você nem ninguém tá sozinho,/
você faz parte desse caminho

Do filósofo popular Fábio Júnior... Eu, hein...

No fígado

Um dos segredos do boxe é você fazer o adversário proteger o narigão enquanto você prepara um golpe no fígado.

D’après Mário Quintana - 2

Eles, com certeza, mais cedo ou mais tarde, passarão. Eu, com certeza, mais cedo, passarinho.

Dirceu ao telefone? E do outro lado da linha? Lorenzetti. Agora ficou bom

Se vocês forem procurar neste blog ou em Primeira Leitura, jamais encontrarão a notícia de que José Dirceu caiu em desgraça. Dia desses, até brinquei aqui que ele fez o contrário da Conceição, aquela cantada por Cauby: ao descer, ele subiu. Sem posto formal no governo, fica ainda mais livre. E tem nas mãos o PT e quase a totalidade do governo. A começar de Dilma Rousseff, chefe da Casa Civil, sua irmã “em armas”, como ele mesmo disse.

Dirceu e seus amigos se anteciparam aos fatos tornando público que é ele o “nome novo” que aparece nas ligações. Bem, a informação é mais ou é menos importante a depender de quem estava do outro lado da linha. E quem era? Jorge Lorenzetti, o chefão do chamado comitê de Inteligência da campanha, burocrata de quatro costados da CUT, espécie de tutor de Lurian, filha de Lula, churrasqueiro oficial do presidente e seu amigo de todas as horas. E também um dos comandantes da tentativa de golpe do dossiê.

Querem saber de uma coisa? Dirceu nunca abandonou o poder. Era e é o comandante do PT. Não é de hoje que ele é mestre em disfarces, como provam sua história política e sua biografia. Telefonemas para Lorenzetti no meio dessa confusão? Para debater o quê? O sexo dos anjos? A reprodução das baleias? Ele se antecipa em em seu blog, reproduzindo uma observação de Bob Fernandes: um telefonema, por si mesmo, não incrimina ninguém. É verdade. O que complica as coisas é o contexto e a interlocução.

Lá vou eu...

Estou aqui com 617 mensagens acumuladas para "mediar". Como vocês escrevem! Lá vou eu. O pior é ter de ficar excluindo aqueles que deveriam estar nos blogs "deles" e vêm encher o saco no meu...

Lendo a mídia com Tio Rei

De vez em quando, Tio Rei ensina os sobrinhos a ler a imprensa, certo? Certo. Ou certa imprensa. No Blog do Noblat, noticia-se com destaque — e merece até chamada na página eletrônica do Estadão — que a tal personagem até agora desconhecida que apareceu nas ligações telefônicas dos aloprados pode ser José Dirceu ou Ricardo Berzoini. Huuummm. Se fosse Berzoniev, não seria surpresa nenhuma, certo? Ele já é um dos implicados no caso. Assim, a novidade — nem tanto assim — seria Dirceu.

Noblat nos remete a um texto de Bob Fernandes, publicado no Terra Magazine. E quem elogia a “reportagem” que, em tese ao menos, o complica? José Dirceu! Em seu blog, diz o homem: “Hoje, o portal Terra Magazine, em uma matéria correta de Bob Fernandes, noticia a hipótese de ser eu ou Ricardo Berzoini o nome que o delegado Daniel Lorenz, segundo o Estadão de ontem, na matéria intitulada 'Personagem misterioso surge na trama do dossiê', informou ter surgido num extrato telefônico de ligações.” Mais ainda. Ele também se encarrega de dar destaque a um outro trecho da “matéria investigativa” de Fernandes: “(...) o jornalista Bob Fernandes tem o cuidado de alertar os leitores de que ‘a conexão precipitada de nomes com fatos ainda não devidamente esclarecidos contribui apenas para a ainda maior partidarização do caso’. De minha parte, repilo a onda de boatos que tem tomado conta do país, aguardo com serenidade as investigações e reafirmo que não temo nada porque não devo nada.”

Interessante: um delegado fala de uma personagem secreta; um jornalista afinado, digamos, com a metafísica influente dos patriotas que estão no poder cita o nome de Dirceu, e Dirceu diz que a matéria, que ganha publicidade no Blog do Noblat, está “correta”. Agora vou ler aquela do papagaio que fingia ser galo...

Eu, hein!

Já imaginaram uma reunião de condomínio no Torres da Mooca? Que medo!”

O adesismo já começou

Comecem a ler direitinho. Uma parte da imprensa que vinha se comportando mais criticamente com Lula já começa a dar sinais de amolecimento. Não adiante. É a força quase irresistível do poder. Melhor pro Diogo e pra mim. A gente já tinha até feito uma listinha de temas para encher o saco do Alckmin, mas a coisa estava se anunciando menos divertida do que será com Lula. O Apedeuta rende muito mais. Basta, para usar uma expressão sua no debate, a gente “rememorizar a cabeça”. Ah, sim: e estou em campanha agora pra privatizar a Petrobras. É a minha contribuição ao cinema brasileiro.

Agora restam CPI e Justiça

As frentes de batalha, agora, são a CPI dos Sanguessugas e a Justiça. As estratégias propriamente eleitorais estão esgotadas. A um dos lados, falta qualquer noção de caráter; ao outro, sobram idiossincrasias. Nunca vi uma campanha tão dominada pelo marqueteiro como é a de Alckmin. Luiz González está mais para Luís 14. Essas coisas são complicadas. Ele tem algumas marcas na coronha e já ajudou a ganhar eleições. Nessas horas, as pessoas usam as vitórias passadas para garantir as escolhas presentes. Nem que seja a derrota. Cabe ao candidato dar ou não um murro na mesa. Pautado pelos números, Alckmin foi para o ataque na Band; pautado pelas pesquisas qualitativas, foi manso no SBT. A impressão geral é de falta de rumo. Faltam 9 dias para a eleição.

A CPI decidiu convocar Freud Godoy e Rogério Aurélio Pimentel, outro assessor de Lula. Os dois andaram se reunindo (ver abaixo). Aliás, se há coisa de que não se pode acusar este Freud é de solidão. O homem tem sempre à sua disposição um divã amigo. Outro que, se quiser, nunca está sozinho é Augusto Arruda Botelho, seu advogado, que já fez estágio no escritório de Márcio Thomaz Bastos. Quanto ao TSE, vamos ver até onde as oposições levam a batalha.

LEIA, ABAIXO, DENTRE OUTROS DESTAQUES:
- PT, IMPRENSA E VOCAÇÃO TOTALITÁRIA;
- AS BOBAGENS VITORIOSAS DE LULA NO DEBATE;
- POR QUE O APEDEUTA VENCEU;
- OS NOVOS MISTÉRIOS DE FREUD E UM EDIFÍCIO DO BARULHO
- O QUE GEDIMAR DE FATO FALOU NA ACAREAÇÃO

PT, imprensa e vocação totalitária

O PT decidiu recorrer à Justiça, como vocês devem ter lido, pedindo direito de resposta à Veja por conta da matéria de capa da edição desta semana, que denuncia uma operação para apagar as pegadas de Freud Godoy no episódio do dossiê e, assim, afastar do presidente Luiz Inácio Lula da Silva as suspeitas. Lula e o PT já têm no papo duas revistas semanais, um portal, duas emissoras de TV, alguns jornais, blogs e uma renca de colunistas. A independência de uns poucos veículos lhes é absolutamente insuportável. Recorrer à Justiça é direito que assiste todo mundo no Estado de Direito. A questão está nos motivos. Depois da reportagem de Veja, que traz o relato de quadro delegados da PF que sustentam que Freud Godoy e José Carlos Espinoza foram visitar Gedimar Passos na cadeia, já se sabe, e aí admitido pelos participantes:

- Que Freud e Epinoza se reuniram com o tesoureiro no PT — e pode ter sido no dia daquela visita a Gedimar;
- Que Freud se reuniu anteontem com Rogério Aurélio Pimentel, outro assessor pessoal de Lula;
- Que, na acareação com Freud, Gedimar manteve a acusação, mudando a versão só posteriormente;

Lula e o PT dispõem de amplo direito de defesa. Falam o tempo todo, e os veículos de comunicação jamais deixaram de registrar seus ponto de vista, defesas e ataques. Uma, por assim dizer, “revista” chegou a editar o depoimento de um delegado, extraindo dele as partes que não interessavam, para denunciar um suposto complô da Rede Globo contra Lula. Trata-se de uma farsa grotesca.

Vejam só: Lula nem ganhou a (re)eleição, e já estão em curso manobras para intimidar a imprensa. Vê-se por que essa gente estava tão interessada em criar o tal Conselho Federal de Jornalismo, proposta que, anotem aí, vai ressurgir das cinzas se Lula ganhar mesmo o segundo mandato. A liberdade de informação e de opinião é a kryptonita do Super-PT e do Super-Lula. As versões do partido só prosperam num ambiente em que a imprensa ou é comprada ou é vendida. E, no entanto, por ora, Lula tem 20 pontos de vantagem nos votos válidos contra o tucano Geraldo Alckmin.

A meta talvez seja alcançar os 99% que costumava ter Saddam Hussein. Do 1% que resistia ele mandava arrancar a língua.

Cai mais uma mentira: Gedimar sustentou, sim, acusação contra Freud em acareação

Freud, diga-se, vai-se enrolando cada vez mais. O Estadão desta sexta também desmonta a informação de que, na acareação entre Gedimar Passos e Freud Godoy, ocorrida no dia 18, o primeiro houvera recuado da acusação de que o outro chefiava a operação. Deu-se justamente o contrário, informam Fausto Macedo e Sônia Filgueiras. Diante de uma delegada e de dois outros agentes federais, na primeira parte da acareação, Gedimar sustentou a acusação contra Freud. Só na parte final e que ele disse que voltaria a falar apenas em juízo, já aí com clara orientação de seu advogado. Aí veio a tal declaração ao TSE, retirando a acusação contra o assessor de Lula. Desmorona a versão de que Gedimar houvera sido terrivelmente pressionado pelo delegado Edmilson Bruno, que os petistas e sua corriola na mídia tentam transformar no belzebu do caso.

Freud e uma reunião com outro assessor de Lula num prédio da Mooca que merece entrar para a história

Sabem Freud Godoy? Aquele que andou deixando contrita uma parte do colunismo político porque teria sido injustamente acusado? Pois é. Reportagem do Estadão desta sexta, de Ricardo Brandt, mostra que o homem continua a merecer toda a atenção dos assessores de Lula. Anteontem, por quase três horas, ele esteve reunido com Rogério Aurélio Pimentel, outro que tem sala a alguns metros da de Lula, no Palácio do Planalto. Os dois se encontraram no apartamento 183 do Blobo B do edifício Torres da Mooca. No 20º andar, mora outro homem da segurança pessoal de Lula, José Carlos Espinoza. Foi ali que, no dia 18 ou 19, Freud, Espinoza e o tesoureiro do PT, Paulo Ferreira, fizeram uma reunião. Segundo ainda apurou a Veja, Espinoza e Freud estiveram na Polícia Federal de São Paulo e se encontraram com Gedimar Passos, que acusava Freud de ser o chefe da operação do dossiê. O edifício, aliás, merece entrar para a história. O apartamento 174 pertence a uma outra personagem envolvida na tramóia: Osvaldo Bargas. No momento, é ocupado pelo presidente da CUT, Artur Henrique.
UM PRÉDIO DO BARULHO – Mas por que tanto petista reunido num prédio só, meu Deus? Ora, o Torres da Mooca é um empreendimento da Cooperativa Habitacional do Sindicato dos Bancários (Bancoop), criada por Ricardo Berzoini, presidente afastado do PT. Segundo informam alguns moradores, na assembléia em que foram sorteados os apartamentos, 18 deles apareciam como objeto de permuta e não poderiam ser sorteados. Entre estes, vejam só, estavam o 183B e 203B, que vêm a ser justamente os de Aurélio Pimentel e de Espinoza. Permuta??? O que será que eles deram à Bancoop de Berzoini em troca dos imóveis? A cooperativa constrói um prédio de apartamentos no Guarujá. Uma personagem ilustre é dono de um deles: Lula.

As bobagens vitoriosas de Lula

Alguns leitores ficaram um tanto descontentes ou inconformados com a análise que fiz do debate (ver abaixo), apontando a vitória de Lula. Ele falou bobagens gigantescas? Ora, como sempre. A começar da Taxa Selic. Disse que ela é de 6,85% . Se o tucano Geraldo Alckmin estivesse, como se diz, na ponta dos cascos, com a faca na boca, teria aproveitado para mangar de Lula e observar que é de 13,75%: ou seja, o dobro. Lula se confundiu com aquele papelório todo e acabou disparando o número da TJLP do trimestre outubro/dezembro: justamente os 6,85%. Mais de uma vez, disse frases sem sentido, anacolutos que se perdiam num raciocínio que, transcrito, evidenciaria um caos de fragmentos nem sempre claros. Num dos seus gracejos, chegou a dizer que ia “rememorizar a cabeça”. Vai saber que diabo é isso...

Ao contestar o baixo crescimento do Brasil, veio com a história de que o país precisa ser “comparado consigo mesmo”, e não com os outros emergentes, o que é uma tese formidavelmente tola. Quando não tinha saída para os óbvios problemas de seu governo, como os da Saúde, por exemplo, saía-se com a sua máxima: “nunca antes neste país etc e tal”. Mas estava muito à vontade, a despeito de puxar sempre uma ficha para ler números. Alguém sugeriu a Alckmin que fizesse uma pergunta boba, em tom de pegadinha: Lula saberia em que posição o Brasil aparecia numa lista da revista inglesa The Economist? A saída do petista foi bronca, mas funcionou como uma embaixadinha para a galera: “Alckmin é daqueles que, deu no New York Times, ele acredita...”

Aí vocês podem me indagar: “Mas isso é vencer?” Meus caros, depende de para que se fazem debates, não é? Certamente não é para testar a capacidade mnemônica dos candidatos. Quantos vocês acham que perceberam a besteira de Lula no caso da Selic? Quantos ao menos sabem que diabo é isso e para que serve? Alckmin atacou com o gasto explosivo do Brasil com juros. Lula ignorou o debate das taxas reais e preferiu falar das nominais, que já foram, claro, muito mais altas. Em suma, sobra numerália para todos os gostos. Alckmin falou dos 40 mil petistas contratados pelo governo. Ocorre que os cargos que podem abrigar companheiros são a metade disso — é já é um escândalo. O petista também não contra-argumentou. Era quase um diálogo de surdos.

E justamente por isso o resultado acabou sendo mais satisfatório para Lula, já que suas fragilidades não foram expostas. E é ele quem está bem à frente nas pesquisas. O comando da campanha de Alckmin e ele próprio, conforme deixa claro na sabatina da Folha, não acredita que sejam 20 pontos. A nove dias da eleição, mesmo que seja a metade, um debate, nas condições em que se deu o do SBT, não terá o condão de mudar nada.

Lula fez uma pergunta que ele sabe que tangencia a delinqüência política e intelectual: aonde foi parar o dinheiro da venda das estatais? Era a hora de Alckmin contra-atacar — aí, sim, com números, muitos —, trazendo à luz as virtudes da privatização, acusando a demagogia do PT e, por que não?, as mentiras espalhadas pelo próprio Lula. A resposta veio, mas fraca. Se Lula falou tanta bobagem, por que não se queimou? Porque elas não foram exploradas por seu adversário, excessivamente cordato nesta quinta. Alckmin foi mais duro em marcar a sua diferença em relação a Lula no que diz respeito ao corte de gastos e à política fiscal. Mas tais assuntos, convenha-se, são quase etéreos para a larga maioria.

Então...
Bem, então temos um presidente que está prestes a se reeleger e que pode, a qualquer momento, ser colhido pelo trem da legalidade — da Constituição à Lei Eleitoral. A menos que se ignore o Estado de Direito e se transforme a urna em tribunal, condição que faria de Lula, na prática, um ditador. Teríamos um presidente da República a quem tudo seria permitido. É isso ou é a crise, já que os petistas deixam claro que não aceitarão qualquer veredicto que não seja a tal “vontade do povo”. Resumindo: é crise ou crise.

Por isso eu defendia, e defendo ainda, que o comando tucano, se é que se pode falar de um, seja muito realista em relação às possibilidades de Alckmin. Tanto nos dois debates que há pela frente como nos programas eleitorais, não se pode abrir mão de denunciar o petismo em todas as suas frentes: dos homens do presidente envolvidos com lambanças às mentiras e mistificações do governo. Um eventual novo mandato de Lula tem de ser marcado, desde já, pelo carimbo dos escândalos e por sua precariedade legal. Perder a eleição, o mais provável a essa altura, não implica uma derrota política. Porque a política sobrevive ao dia 29.

O bom-mocismo, agora como antes, só privilegia os bandidos do filme. Na guerra, o mocinho também atira. Se não atira, morre.

Há mais um nome na nau dos "aloprados"

Por Leonard Souza e Hudson Corrêa, na Folha desta sexta: “O superintendente da Polícia Federal em Mato Grosso, Daniel Lorenz, informou que surgiu o nome de 'uma pessoa importante' no cruzamento dos dados telefônicos obtidos nas investigações da origem do dinheiro que seria usado pelo PT na compra do dossiê. Lorenz não disse o nome nem se a pessoa tem relações partidárias, alegando que o inquérito está protegido por segredo de Justiça. Informou apenas que a pessoa recebeu uma ligação de um dos petistas diretamente envolvidos no caso, telefonando em seguida para o número que a contatou. Acrescentou que esse novo nome não fazia parte do escopo inicial das investigações, ressaltando, contudo, que o fato de ter recebido um telefonema de um dos investigados não necessariamente incrimina a pessoa. Disse também que a troca de telefonemas ocorreu justamente no período da negociação do dossiê. "Essa pessoa recebe e retorna a ligação dentro de um determinado contexto." Na análise dos dados bancários recolhidos até agora, o superintendente disse que já foram identificadas várias pessoas que aparentam terem sido usadas como 'laranjas'. Hoje, o delegado da PF encarregado do caso, Diógenes Curado, entrega ao juiz federal Jefferson Schneider relatório parcial das investigações e pedido para prorrogar o prazo do inquérito.Clique aqui para ler mais

Alckmin na Folha 3 - No ajuste fiscal, a diferença

Para Alckmin, a grande diferença entre a sua proposta e a de Lula está na compreensão do ajuste fiscal e na sua qualidade

FOLHA - O sr. já falou em várias entrevistas sobre a questão fiscal. O governo federal tem pouca margem para investir. Além de vender o AeroLula, o sr. sabe onde vai cortar?
ALCKMIN -
Primeiro é importante mostrar as diferenças. Aqui está uma importante: meu adversário diz que não precisa cortar gastos. Na visão dele é impossível. Ele aumentou, nos últimos 90 dias, quase 1% do PIB -0,8% de gastos correntes. Quem entrar no ano que vem já entra com 1,2% de aumento no PIB. Grande parte dos aumentos não foi dada em janeiro, foi dada no meio do ano. Evidente que, se você não vai cortar despesas, vão surgir receitas. A carga tributária, que é de 38%, vai a 39% em 2008, vai a 40% e o Brasil não vai crescer.
FOLHA - E o senhor fará o quê exatamente?
ALCKMIN -
Qual a receita atual? Aumentar gasto, aumentar imposto e cortar investimento, que se esgotou, inclusive. O país não tem mais capacidade de investir. Tem 3.000 obras paradas. E meu adversário entende que a política fiscal não está no centro do problema. Eu vou fazer o contrário: vou cortar gastos, para poder gradualmente ter uma redução da carga tributária, juros mais baratos. Como a política fiscal é frouxa, é ruim, pela má qualidade do gasto público, a política monetária é muito dura. Gasta muito, aí os juros têm que ser altos e, a cada ponto na taxa Selic, você gasta mais R$ 9 bilhões e prejudica a questão fiscal. No ano passado, só de juros, foram R$ 156 bilhões. É o maior programa de concentração de renda do mundo. Esses juros absurdos mais o fato de o Brasil não crescer empurram o câmbio para baixo, o que mata o setor produtivo. Aí o governo, para segurar o câmbio artificialmente, compra dólar e deixar lá fora. Ganha 5% e para isso tem que emitir título aqui dentro e paga 14%. Está queimando dinheiro.
Como cortar? Já fizemos, o Mario Covas e eu. Aqui em São Paulo, o governo tinha 25% de déficit orçamentário. No primeiro ano, foi para 3%. A questão do AeroLula é que você passa para todo o governo a idéia: "Aqui não tem problema de gastação, pode gastar à vontade". Aliás, o governo não teve uma medida de controle de gastos. Você precisa ter 34 ministérios? A questão fiscal, para mim, é questão central. Meu adversário não acredita que exista o problema fiscal.
FOLHA - Economistas dizem que, por mais que tenha efeito simbólico reduzir ministérios e vender o avião, não se faria uma economia substancial de gastos. Para fazer, seria preciso atacar questões como desvincular o aumento do salário mínimo dos aumentos da Previdência. O sr. cogitaria isso em seu mandato? O sr. manteria o ritmo de aumento do salário mínimo do governo Lula?
ALCKMIN -
Não. E sou totalmente contra [a desvinculação]. O governo do PT deu 1% de aumento de ganho real nos dois primeiros anos, e, neste ano, deu 16%. No ano que vem, vai pra 1% de novo. O compromisso não é com o pobre, é com o poder. Isso está errado. Sou contra desvincular o piso, porque o salário mínimo está desvinculado pela Constituição.

Alckmin na Folha 2 - Diagnóstico correto do governo Lula e fim da reeleição, mas só para eleitos em 2010

Ao debater as alianças políticas para governar, Alckmin faz diagnóstico correto do governo Lula. Ele também fala sobre o fim da reeleição e deixa claro: seria só a partir de 2010. Ele próprio, se eleito, poderia se candidatar de novo, embora diga que só pensa em quatro anos. Seguem trechos:
(...)
FOLHA - É exatamente a mesma coisa que o Lula nos disse.
ALCKMIN -
Mas o problema não é esse. Aliança não pressupõe roubo, é diferente, é diferente. Tem gente boa na politica, não é só bandido não, tem gente boa, os jornalistas conhecem os bons jornalistas, político a gente conhece. O Lula se aliou ao que há de pior na política brasileira, sob todos os pontos de vista. O mensalão é subjugar um poder ao outro, é uma visão autoritária,de quem não tem apreço pela democracia. Não é um fato isolado, é uma coisa institucional, não aprenderam com o erro. Você vê que eles se repetem a cada semana. Era a Secom, sumiram R$ 11 milhões. Aí qual foi a desculpa? O material foi feito sim, só que foi entregue nos diretório do PT. Confessaram um crime menor porque o outro é maior. Aí passam os dias, vem o dossiê, é um atrás do outro. Tá errado.
PERGUNTA DO LEITOR - O senhor se sente traído ou abandonado por setores do PSDB?
ALCKMIN -
De maneira alguma. O PSDB participou ativamente da campanha, aliás o pessoal todo vestiu a camisa, no Brasil inteiro. Fomos crescendo, com esforço, e devo muito isso ao PSDB, à nossa aliança.
FOLHA - O sr., se eleito, vai encaminhar ao Congresso a proposta de extinção da reeleição?
ALCKMIN
- Não tenha dúvida. Você não pode ficar dependendo das virtudes do candidato. A possibilidade de utilizar a máquina pública é absurda. Teoricamente, a reeleição só dá força para o eleitor. Só que, na prática, estamos vendo um desvio absurdo. Eu pretendo em janeiro mandar duas reformas: a tributária e a politica,com fidelidade partidária e voto distrital. E mandato de quatro anos.
FOLHA - A sua proposta impediria a reeleição já em 2010?
ALCKMIN
- É óbvio que você não pode mudar a regra depois de feita. Não posso tirar o direito dos governadores, que foram eleitos numa regra.
FOLHA - Vamos supor que o sr. ganhe eleição. Vai tentar a reeleição?
ALCKMIN
- Eu vou trabalhar no meu mandato de quatro anos.
Clique aqui para ler mais

Alckmin na Folha 1 - ajustando o discurso sobre as privatizações

Durante sabatina na Folha de S. Paulo, publicada nesta sexta, o candidato tucano Geraldo Alckmin acertou o tom da resposta no que diz respeito às privatizações, como se verá abaixo. Para mim, leitores, permanecerá sempre um mistério por que Alckmin costuma dar entrevistas melhores do que seus programas de TV — e, no caso, do que seu desempenho no debate do SBT nesta quinta. Vejam que ele destaca, por exemplo, os números da telefonia. Pois é: por que seu marqueteiro não fez um bendita peça publicitária mostrando o povaréu, feliz da vida, com o seu celular? Eu realmente não entendo. Mas eles entendem do assunto, não é mesmo?... Seguem trechos da sabatina:
(...)
FOLHA - O discurso do governo, a seu respeito, acusando que o senhor vai privatizar estatais, cortar gastos etc está tendo eficiência em levar para o Lula o voto da Heloísa Helena e do Cristovam Buarque?
ALCKMIN -
Acho que esse eleitorado ainda não está bem definido. Essa questão da privatização, eu acho que está errada. Aliás, acho até que nós erramos, no seguinte sentido: o que eu fiquei indignado é com a mentira. Mentira. Na questão da privatização, é óbvio, que o foi feito está correto, é óbvio que não passa pela cabeça de ninguém, não está no meu programa privatizar Banco do Brasil, Nossa Caixa, Petrobras e Correio. Nós acabamos embarcando nesse barco não pelo mérito, mas pela mentira. É uma mentira reiterada. Foi montada no, Palácio do Planalto, a "Mentirobras".
FOLHA - Vocês se deixaram pautar por essa questão?
ALCKMIN -
Nós simplesmente reagimos à mentira. Não há nada que se sustente sobre a mentira. E não é nem de terceiros... Eu ouvi na rádio CBN a entrevista do candidato Lula. Foi ele mesmo falando. Pra que isso? Não se faz campanha assim.
FOLHA - Ao ficar na defensiva, não se discute, afinal, se você é privatista ou estatizante. Qual sua posição?
ALCKMIN -
Nossa posição é muito clara. Tem setores que foram privatizados e foi correto. Não tinha sentido o governo ter siderúrgica. Foi correto: privatizou a CSN. A Embraer teve um papel de Estado importante, depois superado. Ela tinha 4.000 funcionários, hoje tem 12 mil. Telefonia, quando houve a estatização, teve um significado. Isso passou. O reflexo é que teve R$ 100 bilhões de investimentos, hoje tem 90 milhões só de celular. Você universalizou praticamente o acesso. Isso foi positivo. A prioridade não vai ser privatizar, mas trazer a iniciativa privada para complementar o investimento público na ampliação de infra-estrutura e melhora da logística do pais. Aliás, a única PPP que saiu do papel foi aqui em São Paulo, foi a linha quatro do metrô. Na parceria público-privada, há um mix de investimentos. Entendo que a privatização cumpriu uma etapa. Agora, nossa prioridade não é vender ativo, é trazer o setor privado pra investir e parceria público-privada quando a engenharia financeira permitir.
FOLHA - Acha o setor financeiro é estratégico? Suscetível de privatização futuramente?
ALCKMIN
- Não é suscetível de privatização. Aliás, deixe que faça uma observação aqui: poucos Estados têm banco público -e São Paulo tem. Eu poderia ter privatizado a Nossa Caixa. Muita gente achou no governo que eu deveria ter privatizado, mas parti para outro modelo. Não vou privatizar, vou abrir capital, trazer o setor privado para participar. O Lula privatizou o banco do Ceará e o do Maranhão, que eram federais.
Clique aqui para ler mais

Por que Lula ganhou o debate

Lula venceu o debate no SBT. Por quê? Porque, a exemplo do que temos visto no período pós-primeiro turno, quem deveria estar na defensiva decidiu partir para o ataque. No clipping que costumo fazer dos jornais, publiquei a notícia de que o tucano Geraldo Alckmin não abandonaria o estilo agressivo. Mas eu já havida duvidado antes que isso pudesse acontecer. Assim como a campanha na televisão esfriou visivelmente, viu-se um Alckmin bem comportado, falando num tom monocórdio, sem grandes surpresas. Lula, em contraste, estava num dia muito feliz (e infeliz para o Brasil): fez ironias, provocações políticas, tratou seu adversário com certo desdém, sem, no entanto, optar pela agressividade explícita.

Quando digo que “Lula venceu”, não estou afirmando que ele deu necessariamente as melhores respostas ou que seu discurso tenha sido coerente. Isso, convenha-se, é difícil der ser avaliado e de ser percebido num debate. Até porque, é impossível acompanhar a cascata de números de ambos os lados, mais ainda a de Lula, que não fez questão nenhuma de esconder que lia estatísticas. Ocorre que ele tem uma vantagem e tanto: como está com a maioria do eleitorado a seu lado, pode fazer o discurso triunfalista, tomando como suas todas as virtudes e atribuindo a terceiros todos os problemas.

Há quem queira que Alckmin exagerou na agressividade no debate da Band. Vocês sabem que eu não acho isso. O aumento da diferença entre os dois candidatos não teve a ver, acredito, com a dureza com que se comportou o tucano. Convenha-se: a audiência não foi assim tão grande. O que contou mesmo foi a armação dos palanques regionais do PT e, claro, o terrorismo político que Lula e seus aliados começaram a fazer. E a campanha tucana caiu como pato no truque da privatização.

O pior é que a lição não foi aprendida. Há quem ache que o erro foi ter negado a intenção privatista, cedendo à provocação. Não! O erro consistiu em não ter tido a clareza de fazer a propaganda virtuosa do que foi privatizando, demonstrando, com exemplos, o quanto o processo foi positivo para a larga maioria da população. Hoje, mais uma vez, Lula voltou ao tema, e a resposta do candidato tucano saiu fraca, burocrática até. Quando se debateu segurança pública, Alckmin, com seu bom-mocismo, deixou de dar o devido soco no queixo. É possível demonstrar que o PT entendem bem mais de PCC. Mas nada foi dito. Lula, a exemplo do que fez Mercadante na campanha estadual, disse que caiu o número de vagas do ensino médio em São Paulo. É mentira. Alunos adultos, que antes faziam segundo grau, agora têm um programa especial. Alckmin perdeu a chance de contestá-lo.

O tucano ainda teve a chance, por sorteio, de tratar do tema corrupção. Deu um tratamento puramente técnico, escandindo as sílabas, como se, ao falar devagar, a compreensão do outro lado da tela fosse facilitada. Mesmo o tema da irrigação, importante para o Nordeste, se perdeu num mar de considerações laterais. Em suma, o debate, para o tucano, estava sem alvo. Os petistas disseram que, no encontro da Band, Alckmin fora agressivo por decisão de marqueteiros. Errado. O marketing deu as cartas foi no debate do SBT. E Alckmin quebrou a cara.

Lamento, queridos. Queria aqui estar escrevendo o contrário. Assim como o tucano deu um baile na Band, quem brilhou no SBT foi Lula. Alckmin dançou. Eu sempre lhes disse que o Apedeuta aprende rápido. No que depender só da política, Lula está reeleito. O problema é a polícia. Sim, Lula disse inverdades aos montes no programa. Insistiu, por exemplo, na melhora da saúde em seu governo, o que é piada. Exaltou seus investimentos em saneamento, outra — ainda mais grotesca. Mas reitero: um debate não é pra confrontar esses dados, não. Um debate serve para um confronto de personalidades e de generalidades políticas, de rumos.

Os dois pilares de Alckmin, nesta quinta, deveriam ter sido a corrupção e as privatizações, lembrando os avanços do Brasil. Foi modesto num e fugiu de outro. E escolheu um caminho que claramente se mostrava ineficaz: pedia que o telespectador fizesse a comparação. Só que a comparação, nesta noite, era ruim para ele. Candidatos, cada vez mais, esquecem de ser o que são para dar pelota para pesquisas qualitativas e conversa de marqueteiro. Dá nisso aí.

Dois institutos apontam 20 pontos de diferença de votos válidos entre Lula e Alckmin. Eu acho que ela é muito grande. Acho até que a tendência é que ela se estreite. Mas não terá sido por esse debate. E sim porque há uma fatia móvel do eleitorado, que muda de voto por motivos mais ou menos insondáveis. Acontece que a gente tem de voltar à questão original: quem dependia do debate para tentar reverter o quadro? Alckmin. E o que o debate fez por ele — ou o que ele fez por si mesmo — nesse sentido? Nada.

PS: Ana Paula Padrão parecia o Coelho da Alice. Sempre de olho no relógio, hehe...

Quinta-feira, Outubro 19, 2006

Debate no SBT - Considerações finais

Considerações finais de Lula
Diz que o PSDB ficou no governo federal 8 anos e 12 no estadual. Como Alckmin promete fazer o que não fez nesse tempo? E lá vem uma cascata infindável de números. Diz que cada um pode falar o número que quiser. Diz que o passado absolve alguns e condena outros. Diz que tem o sonho de transformar o Brasil no país mais democrático do ponto de vista do acesso à universidade. Diz que sabe a diferença entre um trabalhador com formação profissional e outro sem. Pede a Deus que o povo vote no crescimento, no controle da inflação e numa das maiores democracias do mundo.

Considerações finais de Alckmin
Alckmin agradece a todos e cumprimenta Lula. Diz que o PT teve a sua oportunidade. Vimos o quê? Um descalabro ético. Sob o ponto de vista de gestão, há uma calamidade. E diz que o Brasil não cresceu. Diz que não vai permitir a privatização das estatais por partidos políticos. Diz que vai desaparelhar o Estado. Passa a atacar o desperdício, a ineficiência, a corrupção. Diz que vai trabalhar pelo emprego. Afirma que vai baixar juros, tornar o Brasil mais eficiente. Diz que quer emprego para os jovens. Lembra que, de cada 10 jovens, quatro estão desempregados. O Brasil está com a receita errada. Plano Econômico é crescimento. O Brasil pode mais e merece mais.

Debate no SBT 3 - Houve empate

Lula pergunta – Faz ironia. Diz que não vai mais perguntar sobre privatizações porque Alckmin não gosta. Quer saber como o tucano vê o programa Luz para Todos?
Alckmin responde – Alckmin diz que Lula é bom para mudar nome de programas. Lembra os programas sociais que Lula reuniu no Bolsa Família. Diz que o programa Luz para Todo é o programa Luz no Campo de FHC. E que, já que Lula gosta do campo, deveria responder por que não fez um único hectare de área irrigada. Diz que vai continuar o Luz para Todos.
Réplica de Lula – Diz que o Luz no Campo não tem nada a ver com o Luz para Todos. Porque se cobrava pelo primeiro e não se cobra pelo segundo. Diz que o governo de SP não pôs um centavo no programa e que o governo federal faz sozinho.
Tréplica de Alckmin – Diz que a eletrificação rural em SP já aconteceu. Volta ao tema da irrigação.

Alckmin pergunta – Diz que os gastos do governo federal com juros, em 3 anos, foram de R$ 329 bilhões, R$ 128 bilhões a mais do que no quadriênio anterior, de FHC. Chama isso de Bolsa Banqueiro. É possível?
Lula responde – Imagine quando se pagava quando o juro era de 53%. Diz que as empresas, pela primeira vez, lucraram mais do que os bancos. E diz que as pessoas estão ganhando mais. Diz que, assim, não precisa de Proer. Diz que os juros estão caindo. Fala da distribuição de livros. Se perguntarem se o Brasil está uma maravilha, ele vai dizer que não. Diz que é possível fazer mais.
Réplica de Alckmin – Diz que ambos são diferentes. Lula acha que está tudo bem. Insiste nos R$ 329 bilhões de juros. Diz que o Brasil tem o maior juro real do mundo. Lembra do efeito da política no câmbio, que quebrou a agricultura. Diz que, no ano passado, se pagaram R$ 156 bilhões de juros, mas não tem dinheiro para aposentados
Tréplica de Lula – Diz que vale tudo em campanha e que o aumento proposto pelas oposições era demagogia. E que o dólar está barato porque, felizmente, há excesso de dólares no Brasil.

Lula pergunta – Diz que ouve falar em corte de gastos, corte de gastos. Quer saber como é que o candidato Alckmin vai fazer todos os cortes no Orçamento que diz que vai fazer.
Alckmin responde – Diz que o governo Lula cortou 7,49% da Saúde. 5,4% da cultura e 44% no Orçamento. Volta a falar nas diferenças: diz que Lula não vai cortar gastos. Que vai manter os 40 mil petistas no governo. Diz que vai cortar se não é impossível baixar impostos. Diz que, em SP, só com compras eletrônicas, economizou R$ 4 bilhões em quatro anos. Diz que, como está, o Brasil não vai crescer. Lembra a carga tributária de 40% do PIB.
Réplica de Lula – Fácil falar, mas difícil fazer. Lista alguns ministérios que não têm verbas, mas têm importância social. Diz que, em oito anos, os tucanos não fizeram o que o PT fez em quatro anos.
Tréplica de Alckmin – Veja a diferença. Lula não vai cortar gastos. Acabou de dizer que quatro ministérios custaram R$ 100 milhões. Só o Aerolula custou R$ 150 milhões. E insiste que vai custar gastos para o Brasil crescer mais.

Alckmin pergunta – Vai voltar à Saúde. Diz que 78% das pessoas brasileiras dependem do SUS. Lembra que, quando Serra era ministro, aprovou-se a PEC estabelecendo 12% de gastos para a saúde. Diz que o governo federal deixou de investir R$ 1,6 bi na Saúde.
Lula responde – Diz que Alckmin acha que investir em comida não é investir na saúde. Começa a ler uma lista infindáveis de número. Fala do SAMU, do atendimento dentário. Insiste em que foram enviados R$ 300 milhões para os hospitais do Rio. Diz que a política da saúde não é perfeita, mas melhor do que foi.
Réplica de Alckmin – Tirar dinheiro da saúde não é correto. Por que Lula não investiu na saúde dos deficientes?
Tréplica de Lula – Alckmin faz pergunta fora de hora. Diz que já foram postos R$ 10 bilhões no saneamento. No último ano do governo FHC, haveria R$ 236 milhões no